Economia & Negócios

Unhas tatuadas e Darlene são 'febre'

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

O crescente interesse das pré-adolescentes pelo consumo de produtos de beleza e serviços como cabeleireiro e manicure, além de despesas antecipadas em três ou quatro anos, traz um certo “espanto” aos pais diante de novidades como a tatuagem de unha (isso mesmo) e a “calcinha da Darlene”. A comerciante Cidinha Simioni, proprietária de uma loja de perfumaria e cosméticos, afirma que a maior procura hoje é por esse produto. “Está uma febre de unhas coloridas”, diz.

Segundo Cidinha, o gasto com as figurinhas, o esmalte e a base custa, no total, cerca de R$ 4,00. Para os cabelos, a moda são mechas removíveis, a um custo unitário de R$ 4,90. “É um arame que fica por baixo do cabelo e prende a mecha”, explica.

De acordo com a comerciante, a preocupação exagerada com a beleza pelas meninas que ainda não chegaram à adolescência - e o consumo desses produtos - é coisa recente. “Isso vem ocorrendo de três anos para cá. É muita propaganda. A mídia investe muito nos adolescentes”, diz.

Quanto à maquiagem, embora não haja linhas próprias para essa faixa etária, Cidinha conta que existem substitutos mais “lights”, como no caso das garotas que querem usar batom. “Às vezes, tem meninas que vêm aqui com os pais e querem comprar maquiagem e o pai não deixa comprar. Eles dizem: ‘Você é muito nova, tem 11 anos’. Então ela acaba levando o brilho labial”, declara.

Apesar de comercializar cosméticos há tempos, Cidinha afirma que não deixaria “de jeito nenhum” uma filha descolorir o cabelo ou usar maquiagem nessa idade. “Hoje você cruza na cidade com menina de 6 anos com mecha descolorida”, conta.

A administradora de empresas Patrícia Maria Berro Schuckar, mãe de Vitória (que pintou os cabelos de rosa-choque), afirma que procura manter um diálogo franco com a filha para evitar exageros ou arrependimentos futuros para a filha de 10 anos. “Tudo que é demais fica feio. Mas ela está bem consigo mesma nessa imagem, não tenho porque ir contra. Não posso impedir que a auto-estima dela floresça”, diz.

Patrícia só diz ser mais restritiva a coisas que agridam o corpo, como piercing ou tatuagem. “Não sou contra tatuagem, mas acho que ela (a filha) tem de esperar. É preciso avaliar se o prazer é maior que o preço a pagar”, afirma. Vitória, por sua vez, conta que sua “imagem exclusiva” fez sucesso entre as colegas e lhe valeu o apelido de Shakira.

A mãe não acredita que a preocupação em ser aceita, em princípio, a partir de uma imagem possa causar problemas no desenvolvimento social da filha. “Isso faz parte da evolução. Temos de rever nossos conceitos”, brinca Patrícia.

Darlene

O contraponto ao modo cuidadoso com que Vitória trata de sua aparência, ou seja, sob observação da mãe, com cuidado de usar produtos adequados e, principalmente, conversando muito, pode ser exemplificado pelas pré-teens que se inspiram na personagem Darlene, vivida por Deborah Secco na novela “Celebridade”.

Na ficção, Darlene quer ser reconhecida como celebridade sem, contudo, apresentar nenhum talento senão o da imagem bem esculpida. Fora das telas, a moda Darlene (minissaia, sandálias plásticas e meias e calcinha coloridas) atingiu em cheio o gosto das meninas. A vendedora Jaline Gilioti de Oliveira, que há mais de um ano comercializa lingeries, afirma que a calcinha estilo Darlene (listrada, com bolinhas coloridas) é hoje a campeã disparada de vendas.

“Mais de 50% das calcinhas são desse tipo, para crianças de 10, 12 anos. Os pais e avós mesmo compram”, conta Jaline. Segundo ela, as calcinhas com motivos de anjos, carinhas e desenhos japoneses também têm saída certa. “É um negócio bem viável”, diz. Cada calcinha sai por uma média de R$ 7,00.

A vendedora também conta que há novidades quase semanais nesse setor. Nisso, as tradiconais calcinhas brancas de algodão quase sumiram. “As meninas não deixam a mãe comprar”, afirma Jaline. A propósito, as calcinhas estilo Darlene são usadas com a parte de cima aparente.

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Apelo

Para a psicóloga Silvana Bormio, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC), a preocupação precoce com a imagem causa certa preocupação. Isso porque uma calcinha diferente ou um batom vermelho são, a priori, instrumentos usados pelas mulheres adultas como parte do processo de sedução. “Há um apelo erótico que, inclusive, é estimulado com o acordo das mães”, aponta.

Segundo Silvana, hoje é normal uma menina de 4 ou 5 anos que não quer mais se vestir como criança, mas como mulheres em miniatura. “É como se quisesse colocar um cenário muito grande dentro de um palco pequeno. A criança não tem aparato psíquico para processar essas informações”, compara.

A psicológa também observa que as crianças - e os próprios pais - estão inseridas numa “onda de consumo” quase inevitável. “Há o apelo comercial. A Eliana tem seu batonzinho, a Angélica também. Todo mundo quer tirar sua fatia do bolo e o que menos se pensa é até que ponto isso é bom ou prejudicial para a criança”, diz.

Silvana, que também é mãe de uma menina de 11 anos, conta que procura ceder no que é possível. A menina tem mechas coloridas, por exemplo, mas não pode ir à danceteria. Na verdade, reconhece a psicóloga, não há como preservar as crianças dessa enxurrada de informações e objetos desejáveis, ainda que inadequados para a idade. “A coisa proibida é bem possível que seja também muito desejada”, diz.

Na opinião de Silvana, o desejo de consumo de artefatos que, no fundo, estão carregados de significado erótico - como a lingerie da Darlene - são coisas tristemente particulares do Brasil. A psicóloga exemplifica com os concursos de beleza infantis: “Por que a criança precisa desfilar de biquíni?”

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