Economia & Negócios

Artigo: Emprego deve ser prioridade


| Tempo de leitura: 3 min

As últimas estatísticas sobre a economia mostrando que o desemprego cresceu na Grande São Paulo para 19,8%, e no país para 12%, juntamente com o fato de que o PIB caiu 0,2% no ano passado, deixam claro que não há mais como se protelar o lançamento de um firme programa de geração de empregos. Se o atual governo acredita que até um programa de combate à fome pode funcionar, há que acreditar muito mais que o desemprego pode ser combatido com adequadas políticas governamentais. E por que não lançá-lo imediatamente?

A política econômica e os ministros responsáveis por ela têm que reconhecer que o maior de todos os problemas está na recessão e no desemprego. Sem debelar esses dois males, o governo federal não consegue fazer crescer sua arrecadação enquanto aumenta a necessidade de gasto social, inclusive para socorrer os desempregados. Se o governo arrecada menos e gasta mais, acaba se endividando e, com isso, volta rapidamente a amedrontar os mercados financeiros, que nessa hora podem passar da euforia à depressão.

Existe um mito entre alguns importantes economistas brasileiros de que o crescimento econômico causa inflação. Esse mito é indevido e ele se deve a um pressuposto que é valido somente nos países desenvolvidos. O que ocorre é que como estas nações de economia avançada já resolveram quase que completamente seus problemas de infra-estrutura, não lhes resta muito alternativa em termos de como e onde gerar novos empregos. Ou seja, quando aumenta o desemprego, a única alternativa é o próprio governo lançar meios para estimular o aumento do consumo da população que muitas vezes prefere poupar e consumir somente o básico e o essencial. É o que está ocorrendo agora no Japão. Muitas vezes este estimulo “forçado” ao consumo acarreta em aumento da inflação se medidas compensatórias adequadas não forem adotadas pelos governo. Nestes países altamente desenvolvidos, felizmente para eles, resta muito pouco a fazer em termos de criação de infra-estrutura.

Em países como o Brasil, os grandes problemas de infra-estrutura básica ainda não foram resolvidos e, portanto, há como se gerar empregos em áreas como saneamento ou na reconstrução de rodovias apenas para dar dois exemplos. Há quanto tempo não possuimos um programa de construção de habitações populares? Além de resolver o problema do enorme déficit habitacional estaríamos utilizando a forma mais barata de obtenção de empregos que é a construção civil. O outro setor que tradicionalmente gera empregos com poucos investimentos é o turismo. Com mais de 8000 km de uma costa maravilhosa, talvez essa seja a nossa grande vocação, mas falta uma política para ajudar este setor para que ele possa retribuir trazendo os dólares que vão ajudar o país.

Esse crescimento da economia poderia gerar um aumento da arrecadação muito maior que a nova política tributária poderá trazer e, com isso, o governo imediatamente passaria a dispor de mais capital para novos investimentos. Afinal, o clima é de um certo desapontamento, mas ainda é de confiança.

O temor de que uma política que favoreça o crescimento não é boa, porque traria o aumento da inflação, faz parte da lógica do mercado financeiro para quem o crescimento sempre tem que ser adiado até que se corrijam os desequilíbrios. Só que essa política aplicada nos últimos 12 ou 13 anos é que nos fez chegar na atual situação, onde o setor industrial está totalmente enfraquecido, sem possibilidade e sem coragem de investir na própria produção, gerando os empregos que tanto necessitamos.

O governo conseguiu ganhar o primeiro round que foi conquistar a confiança do mercado financeiro. Agora precisa ganhar a confiança daqueles que tem como aumentar a produção e o emprego.

O autor, Paulo Feldmann, é diretor da consultoria BearingPoint e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP.

Comentários

Comentários