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'Entidades ajudam a reduzir violência'

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Uma comunidade carente que poderia ter se tornado foco de tráfico de drogas e violência, mas que afastou-se dessa realidade ao ter uma entidade social abraçando as crianças e adolescentes do bairro e fornecendo educação, alimentação, lazer e orientação às famílias. O projeto Girassol, do Centro Espírita Amor e Caridade, no núcleo Fortunato Rocha Lima, é um dos exemplos de iniciativas que oferecem uma nova oportunidade a crianças e suas famílias, mesmo com as necessidades urgentes da comunidade.

O psicólogo e coronel da reserva da Polícia Militar José Sílvio Turini é o presidente do projeto, que surgiu juntamente com o bairro, quando os moradores iniciaram a construção das casas, pelo programa de desfavelamento da região, em 1996. “Na época, começamos fornecendo sopa para o pessoal que vinha trabalhar. A sede do projeto também foi construída no mutirão. Começamos com três salas para realizar a complementação pedagógica e fomos aumentando para ampliar o atendimento à população”, diz.

Atualmente, o projeto conta com estrutura para oferecer acompanhamento pedagógico, cursos profissionalizantes, orientações de saúde e alimentação. São cerca de 300 crianças e adolescentes de 7 a 14 anos participando diariamente das atividades, no período oposto ao que freqüentam as aulas. Nesta entrevista, além da iniciativa do projeto Girassol, Turini fala sobre a ação das entidades nas comunidades carentes, os problemas de criminalidade nos bairros e analisa os conflitos ocorridos no Rio de Janeiro na última semana.

Jornal da Cidade - A presença do projeto Girassol no núcleo ajudou a reduzir a violência?

José Sílvio Turini - Tínhamos problemas de violência no início do bairro, e com o passar dos anos, a gente nota uma melhora grande, sim. Hoje, eu não classificaria o núcleo como violento, ele pode ser comparado com qualquer outro bairro da cidade. É um bairro tranqüilo. Acredito que o projeto Girassol tenha contribuído para que as pessoas que moram no bairro não sofram exclusão social. Trabalhamos há sete anos com a meta de fazer com que a criança e a família tenham atendimento e assistência. Com isso, damos formação moral, educação, alimentação, orientação de saúde com atendimento médico e psicológico, fonoaudiólogo, advogados e assistente social. Com certeza, isso evita o fator da violência. Uma pessoa que tem formação na parte educacional, tem proteção de saúde e emprego não vai ser uma pessoa violenta na sociedade.

JC - Como o trabalho de entidades assistenciais pode ajudar na redução da criminalidade?

Turini - Cada entidade trabalha dentro do seu enfoque e do seu trabalho, e vai ajudar de alguma maneira. Sabemos que o governo sozinho não vai dar conta de atender todo mundo, ele depende das ONGs (organizações não-governamentais) que trabalham ao lado da população. A nossa iniciativa é ter a oferta de atividades extra, para evitar que elas fiquem brincando na rua no período em que não estão na escola. Elas recebem alimentação, fazem cursos, tem lazer e por isso gostam de participar do projeto. Aqui dentro, elas nem têm a oportunidade de entrar em contato com as drogas e a violência, porque convivem com outras crianças fazendo as atividades e recebendo carinho. Tudo isso para que ela seja formada e um dia possa execer a sua cidadania.

JC - E por que, mesmo com tantas entidades atuando em bairros mais necessitados, ainda temos altos índices de criminalidade?

Turini - Bauru ainda tem índices pequenos de criminalidade, se compararmos com outras cidades do mesmo porte ou maiores. No Brasil, é essa carência que leva à violência. São os problemas educacionais, de saúde e desemprego, são os três pontos cruciais para gerar a violência.

JC - Por que há bairros onde as entidades conseguem desenvolver uma relação positiva com a comunidade e outros onde, mesmo com os trabalhos, a violência e a criminalidade predominam?

Turini - Tudo depende do ser humano. Para a pessoa evoluir, é necessário ter educação e amor ao próximo, são os dois pontos para você sair da violência rumo à paz. Em bairros violentos, existem pessoas voltadas para outro caminho, para a destruição e a violência. Às vezes, você reúne pessoas com esta atitude que acabam se sobressaindo e dominando a população. A intenção das instituições é produzir coisas boas. Se não produz, é mais em razão do ser humano.

JC - Na última semana, o Brasil assistiu à explosão dos conflitos entre traficantes da Rocinha e do Vidigal, no Rio de Janeiro, e à intervenção da Polícia Militar no problema. Como o senhor analisa esta situação?

Turini - O problema da violência é que, associada ao tráfico, ela fica sem controle. O nível de violência e os crimes hediondos acontecem geralmente associados ao tóxico, drogas e álcool. No Rio, há uma disputa de território e a polícia está tentando apaziguar os grupos rivais que disputam o tráfico da droga. É uma guerra civil, e geralmente a violência mais extrema que a gente tem neste tipo de comportamento é ligado ao tóxico.

JC - E o senhor acha necessária a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro?

Turini - Eu acho que é uma situação muito temerária, como já foi provado. As Forças Armadas são treinadas para combater o inimigo, para a guerra. E o policial militar é treinado para atender a população urbana, para fazer a prevenção da violência entre os cidadãos. Ele tem uma preparação para lidar com a população. Já o militar foi formado para guerrear e matar o inimigo, é outro enfoque. Logicamente que as forças armadas serão um recurso de última instância, e na minha opinião, realmente elas devem ser utilizadas somente quando não houver mais jeito, se houver uma guerra de verdade. Enquanto puder se evitar lançar mão das Forças Armadas para esse fim, o governo deveria evitar.

JC - E o tráfico em Bauru representa um problema tão grave quanto no Rio de Janeiro?

Turini - O tráfico existe, como em praticamente todas as cidades do Brasil. Nosso problema maior é ser um entroncamento dos transportes e o tráfico passa por aqui. Mas não é um índice alarmante como em outras cidades. Porém, se não for combatido com rigor, ele aumenta cada vez mais. O que esperamos é que o tráfico diminua com o combate feito pelas polícias. A Polícia Civil tem uma arma importante para o combate do tráfico, que é a denúncia anônima, em que a população pode ajudar muito. Temos formas de combater a distribuição da droga na nossa cidade e isso tem sido feito pela Polícia Civil e pela Militar.

JC - A mídia explora de modo demasiado os conflitos, guerras e atos violentos. Como psicólogo, você analisa que isto pode prejudicar o desenvolvimento ou até criar tendências violentas?

Turini - Você não pode encobrir a realidade, tem que mostrar, explicar e educar as crianças desde pequenas. Senão você acaba deformando ao invés de formar. Elas se tornam pessoas que, futuramente, serão um problema para a sociedade. A base é a educação. Quanto mais você trabalhar a parte moral, mais você produz bons frutos. É difícil você educar e mudar uma pessoa com a personalidade já formada, mas uma criança ainda é maleável. É fundamental o trabalho que a gente faz na parte de educação, porque você molda a criança. É a faixa de idade em que você ainda consegue mudar o comportamento e transformá-la num cidadão.

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