Cultura

Artigo: Ciranda de emoções

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 2 min

Não é preciso ser nenhum exímio conhecedor de teatro para saber que o trabalho realizado por Denise Stoklos nos palcos é, de fato, profundo. Basta assisti-la. Adepta do chamado teatro essencial - centrado basicamente na teatralidade do ator - ela chega a paralisar a platéia ao se entregar de corpo e alma em cada fala, gesto, respiração e transpiração do seu personagem.

Pelo menos foi essa a sensação percebida por muitas pessoas ao conferir “Calendário da Pedra”, apresentado na última quinta e sexta-feira no Sesc de Bauru. A peça - escrita, produzida, encenada e dirigida por Denise - é um verdadeiro exercício de percepção visual e emocional. A prova estava nos olhares fixos das pessoas acompanhando os gestos ritmados da atriz, que ao final de cada cena, arrancava risos e até gargalhadas da platéia.

A idéia era trabalhar com fatos do cotidiano para estimular a identificação do público. Para isso a atriz escolheu um tema comum a todos: a falta de tempo, ou o excesso dele, ou a importância dele, enfim, o intuito era destacar a diferença entre as horas que nos controlam e as horas que regem nosso relógio emocional.

Algumas cenas eram hilárias. Mais pela ótima atuação de Denise e menos pelos enfoques, que chegavam a ser banais. Em uma delas, Denise contou um caso amoroso e o fim dele. Em outra, mostrou sua indignação com as pessoas, os programas de TV, a desigualdade social e a política. Na próxima cena, a personagem decidia se entrava ou não em um programa voluntário.

E como num ciclo vicioso, a atriz passou pelos estágios de desânimo, alegria, tristeza, harmonia, inconformismo, rebeldia, loucura, solidão, reflexão. E depois voltou, passando por todos os sentimentos novamente - numa ciranda de emoções desencontradas. Estamos falando de algo muito irreal? Ou ninguém nunca se sentiu dessa mesma forma, vivendo em um misto de caos e felicidade? E tudo administrado por um enigmático e inconstante “calendário” biológico?

É justamente essa identificação que uniu a platéia e a personagem. Como numa espécie de cordão umbilical, o desejo de cada espectador parecia fundir-se nos olhares profundos, nas gargalhadas e no deboche exagerado da atriz nos palcos.

E era exatamente esse exagero que misturava comédia e profundidade que levava o público ao êxtase. Como numa espécie de anestésico para que a platéia se soltasse e se abrisse para receber toda a carga de criticidade do espetáculo, que se tornou mais evidente - é claro - no final do espetáculo. Ambientada pela música de Lenine, Denise concluiu sua interpretação de forma suntuosa. Foi como se por uma hora (tempo de duração da peça), o tempo fosse apenas dominado pela intensidade das emoções.

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