Pesca & Lazer

História de Pescador: O velho do rio


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“Fui pescar no Pantanal do Mato Grosso perto do Forte Coimbra junto com o dentista pescador Diocélio e partindo da pousada do Tejada que ficava ao lado do forte, descíamos todas as manhãs para uma região cheia de carandazais e rica em pacus, que pareciam estar em greve, pois não queriam nada com os nossos anzóis.

Testamos todos os truques em matéria de isca: experimentamos as compradas, as manipuladas e até as naturais do próprio mato, mas peixe que seria bom, nada.

Mas numa quinta-feira, logo de manhã, nos deparamos com a famosa e lendária figura pantaneira, O ‘Velho do Rio’. Ele era inspirador e ao mesmo tempo o personagem de mesmo nome da novela Pantanal, que naquela ocasião era transmitida pela TV Manchete.

Nós ficamos impressionados com aquela figura frágil e pálida, que assentada ao fundo da sua tosca embarcação e com o seu sebento paletó molhando pelos dois lados da sua canoa de um pau só, tinha muitos pacus, enquanto nós que estávamos superequipados não tínhamos nada.

— Mas como é que pode alguém pegar tantos peixes com isso aí, eu quis saber.

— Deve ser a isca do velho, respondeu o Diocélio.

Então nós dois passamos a assediar o Velho do Rio:

— Muito bom dia seu moço, cumprimentamos a uma só voz.

Mas o velhinho não respondeu nem olhou para o nosso lado.

— Ei seu moço, que tipo de isca o amigo está usando?

E o silêncio foi a sua resposta. O velho então saiu remando, remando e sumiu numa curva do rio Paraguai.

Continuamos a nossa pescaria e na hora do almoço, o ‘Velho do Rio’ retornou com a sua canoa vazia e nós não economizamos educação:

— Muito boa tarde seu moço, quer almoçar conosco, convidamos. Mas ele parecia cego, surdo e mudo.

À tardinha, ele reapareceu, parecia apressado e, como antes, ignorou os nossos cumprimentos, ofertas e perguntas, mas aí a nossa educação se esgotou:

— Oôô velho surdo, sebento, fedorento, artista de TV metido à besta, não tem vergonha de pescar numa quinta-feira braba, seu vagabundo?

Nós já sabíamos que ele não respondia mesmo, então ligamos o nosso silencioso motor elétrico e fomos atrás dele para ver onde e como pegava tantos peixes. Mas o danado adentrou numa ilha rasa onde o nosso barco não passava e desapareceu definitivamente.

Voltamos para a nossa pousada. Já era noite quando contamos para as pessoas que lá estavam sobre os nossos encontros e desencontros com o famoso ‘Velho do Rio’, mas a resposta do hospedeiro Tejada nos deixou vermelhos, roxos, amarelos e assombrados:

— Vocês dois devem estar delirando. O ‘Velho do Rio’ pescava sim naquele lugar pois ele morava lá, mas já faz mais de dez anos que ele morreu.”

Eurico de Oliveira - aposentado, pescador e contador de histórias.

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