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Cultura que não pode morrer


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Quadro fixado em parede de nosso escritório residencial, reproduzindo o legendário desembarque da esquadra de Cabral no Brasil, testemunha de modo singelo como viviam entre nós as tribos de índios que nasceram e cresceram nos então desertos nacionais. Empiricamente imaginado e, igualmente, assim pintado com tintas descoloridas, o quadro não omite, paradoxalmente, nada do que a natureza plantara em território baiano, mostrando a rudeza do torrão, com as tabas indígenas simplórias pela própria natureza e os habitantes com corpos mal ocultos sob um mínimo de tapumes e as cabeças protegidas por modestas coroas de plumas.

Serão os índios de hoje muito diferentes dos antepassados, que mal se faziam entender vocalmente com um linguajar que nem eles mesmos logravam penetrar, razão pela qual muitas vezes tinham de se expressar gesticulando? Certamente teriam de ser diferentes porque lhes faltava naquelas priscas épocas o aprendizado intelectual que hoje possuem num ambiente que supera em muito o que lhes surgiu no seu velho nascedouro. Hoje, substituíram os seus barracos de sapé por casas de madeira, usam a língua que a comunidade normalmente fala, freqüentam escolas que jamais tiveram e vestem algumas indumentárias que a sociedade veste, causando admiração até as índias jovens, que escondem os belos seios morenos com modernos “bustiês” e cobrem o resto com saias mínimas, como mostrou no recente Dia do Índio a primeira página do JC, através de bela foto, colorida com modernas tonalidades, em que as meninas arriscam sorrisos aos que as observam olhando-as de baixo para cima. Paralelamente, colaboram os indígenas para o desenvolvimento populacional do País, enquanto caravanas suas ocupam cadeiras nos legislativos municipais, estaduais e federais, confortavelmente instalados nas quais lhes sobra a oportunidade de manifestar suas reivindicações em invejável português, que nem todos os parlamentares falam.

Tudo isso é muito expressivo, denunciando que a modernidade não podia esquecer e não se esqueceu dessa gente, que vai contribuindo patrioticamente para a educação e o progresso estrutural da nação, a qual, então, lhes agradece reconhecidamente sua simpática e reprodutiva integração na paisagem e na vida demográfica, como sustentáculo imperecível da expressiva cultura indígena, imortal porque nasceu gêmea com o mundo, que também nunca morrerá porque terá de continuar ensinando as coisas que seus próximos ignoram. É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

“Felizes serão os que souberem valorizar um sorriso, pois seu caminho será sempre cheio de sol” (Folliet)

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