Bairros

Excesso de liberdade pode prejudicar

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Poucos negam as dificuldades que a família enfrenta na hora de dividir responsabilidades no negócio. É preciso paciência, disciplina, respeito e boa vontade, entre outras características, para compensar pontos negativos. Um deles é o excesso de liberdade.

“Não é fácil não. É bem mais fácil trabalhar com funcionário. O respeito é diferente. Trabalhar em família é complicado. A pessoa têm de ter perseverança e punho firme”, diz José Antônio de Andrade Filho, proprietário de uma padaria localizada na Vila Dutra.

José trabalha no estabelecimento com a esposa e os dois filhos de 20 e 22 anos. Todos conhecem cada etapa do processo de confecção e venda dos pães, que passa pelo atendimento de fornecedores, recebimento de mercadoria e pagamentos.

Além disso, é claro, todos põem a mão na massa, literalmente, quando há necessidade. “Qualquer um de nós faz o pão francês e ele sai com a mesma qualidade. É padronizado”, orgulha-se o pai.

Além da família, a empresa tem atualmente três funcionários - dois padeiros e um atendente.

José conta que, com perseverança, conseguiu passar aos filhos o “espírito” da empresa e, hoje, todos conseguem colocar tais conceitos em prática. “Eu fui passando para eles a idéia do que é uma empresa. Eu acreditei que conseguiria”, salienta.

Até conseguir tudo isso, entretanto, ele já passou por muito estresse. “Um funcionário te atende imediatamente. Com o filho, isso não acontece. É sempre para depois. Eles misturam tudo. Já tive vontade de abandonar tudo”, confessa.

De acordo com José, os filhos agora cresceram, estão mais maduros e entendem melhor as diferenças entre o lado profissional e o pessoal. “Eles trabalham comigo por livre e espontânea vontade. Agradeço muito à minha família. Sem ela, eu não teria chegado onde cheguei”, frisa.

“Toda família tem problemas e temos de resolvê-los conversando”, acrescenta o pai.

Autoridade

Genivaldo Silva Almeida, dono de uma pizzaria localizada na Vila Santa Clara, conta que empresas familiares podem propiciar liberdade em excesso no trabalho. O fato dificultaria a administração de determinadas situações.

“Dentro de uma família, você tem liberdade para se expressar. Você fala o que pensa. Isso acaba acontecendo no trabalho com parentes, mas deve haver um controle”, expõe.

Genivaldo, que trabalha com a esposa, um cunhado, um irmão e um sobrinho, conta que já ocorreram desentendimentos, mas nunca houve problemas sérios. “Vira e mexe tem uma discussãozinha, como em toda a família. É uma coisa que resolvemos entre nós mesmos”, afirma.

Outro problema, segundo o dono da pizzaria, é que o proprietário do estabelecimento muitas vezes tem de abrir mão da autoridade para contornar determinadas situações. “É difícil ter de chamar atenção do seu irmão. Mas não tem como passar a mão na cabeça de ninguém”, exemplifica.

Mas ele ressalta também os pontos positivos. Um deles é a economia com o registro de funcionários. “Funcionário gera altos gastos para a empresa”, salienta.

Genivaldo destaca, ainda, os diálogos. “Nos entendemos com mais facilidade. Além disso, nos tornamos pessoas versáteis. Todo mundo sabe fazer tudo, embora haja divisão de tarefas”, diz.

Apesar disso, ele não indica a experiência a outras famílias interessadas em montar empresas ou trabalhar em conjunto. “Eu não indicaria para ninguém. É difícil. Tem que ter cabeça boa, tem que ser controlado. Não é qualquer família que se entenderia assim. É preciso abrir mão de várias coisas. Tem que pensar bem antes”, avalia.

Com todos esses prós e contras, Genivaldo afirma que nunca pensou em desistir. “Já tive arrependimentos momentâneos, quando temos alguma discussão. Mas, depois, pedimos desculpas e fica tudo bem”, garante.

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