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Entrevista da semana: Portugal revive Revolução dos Cravos

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 11 min

Junto com as Guerras Coloniais, a Revolução dos Cravos pôs um ponto final no Regime Salazarista e na história secular das conquistas portuguesas pelo mundo. Para o pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da Universidade do Sagrado Coração (USC), José Jobson Arruda, o início das Guerras Coloniais na África pode ser considerado o marco histórico que levou Portugal à Revolução dos Cravos.

O movimento até hoje impressiona o mundo pela maneira pacifista com que foi articulado e praticado. O pró-reitor da USC faz um passeio pela história de conquistas de Portugal para responder as perguntas que justificam a insurreição de abril de 1974. A seguir, a entrevista:

Jornal da Cidade - Portugal e o mundo comemoram hoje, 25 de abril, os 30 anos da Revolução dos Cravos. Qual foi o significado desse movimento para os portugueses?

José Jobson Arruda - A Revolução dos Cravos foi um movimento histórico da mais alta significação, levando-se em consideração o longo período de uma quarentena de anos do Regime do Estado Novo em Portugal e que correspondia ao exercício do poder por Oliveira Salazar, que ficou conhecido nesse período como o Regime Salazarista. É preciso deixar claro que o Regime Salazarista era um regime fascista. Fascismo que se instalou em Portugal, assim como se instalara na Espanha na época da Segunda Guerra Mundial. Esses regimes, de direita, eram fortes e totalitários.

JC - Mas mesmo depois da morte de Salazar, o regime sobreviveu por mais alguns anos. O senhor avalia que a estrutura do regime era forte e bem organizada?

Jobson - Na verdade, o poder era exercido por seus seguidores, entre eles Cardeal Cerejeira. Uma coisa que é muito pouco contada na historiografia portuguesa é sobre o tombo de Salazar. Ele costumava passar os finais de semana em um dos fortes da Barra do Tejo. Salazar sentou-se numa cadeira de balanço, austríaca - de uso corriqueiro -, e essa cadeira revirou e ele bateu com o bulbo no chão. A partir daí, ele ficou paralítico, praticamente imobilizado. O cérebro praticamente deixou de funcionar.

JC - Alguns historiadores afirmam que o regime começou a desmoronar a partir desse acidente. O senhor concorda?

Jobson - Na verdade, o regime do ponto de vista físico, do ponto de vista da figura de Salazar, termina neste momento. Mas continua, alguns anos depois, mostrando sua força. Quer dizer, o mito que existia em torno do regime é que permitia a sua sobrevivência, mesmo o seu líder tendo praticamente perdido as faculdades mentais para gerir o governo. Mas é claro que todo sistema muito forte como esse acaba gerando uma carapaça, um corpo que fica sempre em volta do líder e, muitas vezes, mesmo na ausência do líder, são capazes de se manter por um longo tempo.

JC - Uma outra corrente de historiadores, como o senhor, defende que o Regime Salazarista começou a cair a partir do início da Guerra Colonial.

Jobson - Se nós quisermos demarcar um momento histórico significativo em que o regime perdeu sua concepção, sua continuidade, é a partir de 1961, quando começa a guerra em Angola. Em grande medida, era exatamente o império africano, Angola e Moçambique, sobretudo, que sustentava grande parte do Regime Salazarista. É preciso levar em consideração que a história de Portugal tem três impérios consecutivos: o asiático, que já no século XVI se constrói e também é destruído. Os portugueses o construíram e o perderam rapidamente para os ingleses e holandeses. Tem o império brasileiro. Esse desaparece com a abertura dos portos e com a proclamação da independência, em 1822, e tem o império africano, que permanece, praticamente, até a queda do regime. A queda do regime significa, consecutivamente, logo nos anos seguintes, a decretação da transferência da autonomia para as colônias. Em alguns casos, se conseguiu fazer de uma forma tranqüila. Em outros não, por causa das dilacerações internas. Até mesmo porque nas colônias, neste momento, a crivagem entre o ocidente e o oriente - em termos, que era no fundo a Guerra Fria que envolvia Estados Unidos e União Soviética - já estava muito tensa e dividia as forças políticas das colônias. E isso explica as Guerras Coloniais.

JC - É possível afirmar que as Guerras Coloniais foram o estopim para o desencadeamento da Revolução dos Cravos?

Jobson - O grande problema é que nos anos 70 começa um movimento inexorável de libertação colonial. Quer dizer, a descolonização entra numa fase avassaladora nos anos 70. E a violência da descolonização põe em xeque Portugal. Porque até aquele momento, os Estados Unidos olhavam com bons olhos para Portugal.

JC - Mas se os americanos lutaram contra a Inglaterra para libertar suas 13 colônias, por que apoiar um país que era colonizador?

Jobson - Porque Portugal era visto, de certa maneira, como anteparo aos movimentos comunistas que atingiam outros países da Europa. Era a idéia de que a União Soviética criava movimentos de infiltração comunista em vários países da Europa. E Portugal era uma resistência a isso. Os Estados Unidos viam com bons olhos Salazar como defensor de um regime anticomunista. E isso explica porque os americanos fecharam os olhos durante um certo tempo para o regime colonialista que Portugal mantinha na África.

JC - Com a previsão do fim da chamada Guerra Fria, essa situação sofre alteração?

Jobson - No momento em que você tem um esfriamento, um degelo nas relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, Salazar já começa a ser visto com olhares vesgos, atravessados, pelos americanos. Porque Portugal era um país colonialista. E esse tipo de sustentação é importante. São dois lados: de um lado a descolonização cria essa emergência, insurreição nos povos africanos; de outro lado, a Guerra Fria cria a possibilidade de que a oposição Estados Unidos-União Soviética diminua e, ao mesmo tempo, os Estados Unidos, então, volta a ter bons olhos para os povos que foram colônias, como eles mesmo foram outrora em sua história.

JC - Sem a adesão maciça do Exército português, assustado e cansado das baixas nas Guerras Coloniais, havia alguma chance da Revolução dos Cravos vingar?

Jobson - Primeiro lugar é preciso dizer que a participação do Exército português na Revolução dos Cravos não é uma coisa de momento, não é uma coisa de abril de 1974. O que acontecia em Portugal durante todos esses anos, com a Guerra Colonial se tornando uma guerra perversa, é que esses soldados portugueses que iam para a guerra se deparavam lá com uma situação muitas vezes humilhante. Era a situação de um Exército mal treinado, mal equipado, mal alimentado, mal municiado, para enfrentar condições adversas na Guerra Colonial. E é claro que essa situação adversa, associada a uma série de outras questões, cria um processo de conscientização. Isso explica porque muitos indivíduos saíram de Portugal nessa época. Eles fugiam da Guerra Colonial. Aqueles que estavam em idade de alistamento iam para os Estados Unidos, vinham para o Brasil nas condições possíveis para fugir da guerra. Um aspecto importante: o contato com o inimigo acabou conscientizando as tropas. A palavra de ordem que alimentava a idéia de que se lutava contra o opressor, contra aquele que dominava e, ao mesmo tempo, palavras de ordem que falavam de uma sociedade democrática, aberta. Veja, eram soldados que estavam lá para abafar um movimento insurrecional e que, ao mesmo tempo, tudo aquilo que eles estavam abafando fazia parte da liberdade que eles não tinham no seu próprio país. Era contraditório. Esses soldados quando voltam, voltam convencidos por essas informações que adquiriram localmente, no contato do dia-a-dia, no cotidiano da guerra.

JC - As altas patentes do Exército, porém, não aderiram a esse processo de conscientização.

Jobson - Quando nós pensamos a participação do Exército, isso não é dúvida. Todas as fotos, as imagens e vídeos que reproduzem o movimento desta época mostram que, na verdade, quando nós falamos do Exército português é preciso entender como sendo uma hierarquia do Exército, essa faixa intermediária. Não são os generais, os grandes comandantes, não são os coronéis. Eram indivíduos do Exército que tinham média patente. São capitães, tenentes e sargentos. É daí para baixo. Isso equivale a dizer que são indivíduos que na Guerra Colonial sofreram mais diretamente seus horrores. Eram indivíduos muito mais sujeitos, por exemplo, a serem doutrinados por essas novas concepções de liberdade, de liberdade da colônia etc.

JC - De certa forma, dá para afirmar que essa conscientização dos soldados foi fundamental para que a Revolução dos Cravos ocorresse sem derramamento de sangue?

Jobson - Na verdade, é o seguinte. É uma insurreição que, quando explode, tem uma adesão brutal. As lideranças políticas do Regime Salazarista só seriam capazes de conter o movimento se tivessem contado com o apoio do Exército. Mas por acaso tiveram o apoio de altas patentes do Exército e esses homens não tinham tropas. E não há alta patente do Exército que sem tropa possa fazer alguma coisa. Não se detém nenhuma revolução com altas patentes do Exército, sem você ter a tropa consciente do que vai fazer.

JC - Fala-se num número muito pequeno de mortos entre a população civil durante a revolução, talvez menos de uma dezena. Essa informação é confiável?

Jobson - O número de mortes realmente é muito pequeno, mas esse número é muito reduzido. É exponencial, mas não corresponde à verdade. Há muitas situações de enfrentamentos que se dão em pequenos redutos, nos quais as forças conservadoras eram mais poderosas, eram fortes ainda. Eram capazes de resistir a certas manifestações. Mas de verdade foi um movimento de adesão ampla, quase que de uma insurreição nacional, que ganhou corpo a partir do Exército.

JC - Após a revolução, Portugal viveu um processo de coletivização dos seus bens, bancos, indústrias etc. Isso prejudicou o avanço da democracia?

Jobson - O período consecutivo à Revolução dos Cravos é muito difícil. Porque você tem uma fase em que se tenta a socialização completa do país, com a coletivização dos bens de produção, indústrias, bancos, terras etc. Tive colegas meus, como o professor Joaquim Barradas de Carvalho, que pertenceu ao Partido Comunista Português, fez a sua tese na França e depois veio dar aula na USP. Era uma pessoa que, apesar de membro do Partido Comunista, era da aristocracia portuguesa, era da nobreza, no fundo, um importante proprietário de terra. Eles perderam todas as terras. Eram terras que produziam curtiços no sul de Portugal. E muitos dos grandes empresários, banqueiros, por exemplo, vieram para o Brasil. Muitas das indústrias portuguesas instaladas no Brasil de hoje são dessa época, exatamente das pessoas que fugiram. Os que lá ficaram e tomaram posse desses bens tiveram grande dificuldade para gerir essas empresas. Estive em Portugal pouco depois da revolução. Em janeiro de 1976 cheguei em Portugal. A idéia era de um país em processo de coletivização, ou seja, a idéia era de que Portugal se transformaria num novo satélite da União Soviética, apesar da Guerra Fria já estar numa fase diferente, mas a idéia era de que Portugal poderia ser uma nova Cuba. E houve várias tentativas nessa direção. Mas os anos subseqüentes foram recolocando a reunião nos seus tempos de uma revolução efetivamente democrática.

JC - Mas acabou imperando o ideal de liberdade que vingou a Revolução dos Cravos.

Jobson - Foi o que acabou se consolidando em Portugal, sobretudo com a participação de algumas figuras que são recentes na sua história, emblemáticas nesse processo de democratização. Isso significa que muitas daquelas coletivizações, apropriações feitas pelo Estado, foram devolvidas. Terras foram devolvidas, bancos, participações, indústrias etc, o que fez com que muitos dos que haviam emigrado retornassem a Portugal. Isso dá a Portugal a idéia de um país que está em fase, digamos, de legitimação da sua sociedade democrática, aberta, pluralista, que é, por exemplo, a proposta do Partido Socialista, em que Antonio Guterrez recentemente modificava e que tem no grande líder, presidente de Portugal nesse período sobretudo conturbado, que é Mário Soares. Isso foi fundamental para que Portugal pudesse aderir à União Européia.

JC - A adesão à União Européia integra o país de vez, política e economicamente, aos destinos do continente europeu?

Jobson - É claro que aderir à União Européia é um passo muito significativo para Portugal. O país consegue cumprir as metas da União Européia. Recebeu nos últimos anos investimentos significativos. Quem passa por Portugal vê as estradas totalmente modificadas. Os investimentos da União Européia foram fantásticos. Há os constrangimentos, é claro. Portugal tem que se adequar à estrutura produtiva da Europa. Isso significa que muitas de suas atividades tradicionais desaparecem. Eles têm que se conformar com certos regramentos da União Européia. De qualquer maneira, esse passo de Portugal é irrecorrível. Não tem retorno. Quer dizer, Portugal que viveu do seu império asiático, do seu império brasileiro, e depois do império africano, agora vive do seu mito imperial. É um império que não existe mais. Eles vivem a saudade. É por isso que os portugueses rememoram e comemoram muito os anos dos descobrimentos.

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