Encontramos por acaso a comitiva do Vitorino Dota em pleno pantanal do Matogrosso e ficamos acampados no mesmo lugar, um rancho de paliçada bem abaixo de Porto Esperança e abaixo ainda do Forte Coimbra. Embora na mesma casa, não pescávamos juntos, sendo eu e o Diocélio uma equipe e os Dotas formavam a outra.
Certo dia, curricávamos dourados num lugar chamado Bahia Negra quando notei uma pequena criação de porcos no lado paraguaio, cujos criadores, em número de mais ou menos dez homens, fugiram todos para o mato ante a nossa aproximação. Eu estranhei aquilo e até comentei:
— Tem algo errado ali. Há muitos criadores para poucos porcos e pouca coragem para tantos homens. É melhor sairmos daqui.
— Vamos entrar no Paraguai pelo rio Negro e pescar dourados num capinzal existente mais acima e assim saímos deste lugar, convidou o Diocélio.
— Eu não vou subir o rio Negro nem morto, respondi com medo. Quando voltar para Bauru, quero eu mesmo contar minha história.
Logo depois a comitiva dos Dotas passou pelo mesmo lugar, a mesma cena se repetiu e mesmo assim desceram todos do barco para comprar um porco porque o rio não estava para peixes. Vitorino, então chefe de sua comitiva, disse saber o espanhol e foi logo cumprimentando o único paraguaio que não correu:
— “Buenos dias amigo”.
— Bom dia senhor, respondeu o outro em bom português.
— “Tengas el puerco”, teimou ainda na língua do segundo.
— Temos sim senhor, respondeu o segundo na língua do primeiro.
— “Aquales condiciones”, quis saber Vitorino.
— Qual porco. E apontando para um leitãozinho que andava por ali, o paraguaio ainda perguntou: Assim?
— “Zi. Esso mismo”, concordou o Vitorino.
— Esse custa duzentos cruzados, respondeu o criador de porcos usando corretamente o padrão da moeda brasileira naquela época.
— “Mui biem! Si fueras posible puedes matálo y limpálo, mientras nos otros nos vuelve a la pesca y después nos vuelve a buscálo y por ora muchas gracias”, terminou o Vitorino.
Eles voltaram pescar ali mesmo na Bahia Negra, mas não viam a hora de degustar aquele leitãozinho que seria feito em fogão de lenha a beira-rio, então voltaram logo para buscar aquela encomenda.
— “Buenas tardies”, falou o poliglota.
— Boa tarde, respondeu o vendedor. Aqui está a sua encomenda, completou ele mostrando uma bacia de alumínio cheia de pedaços de porco.
Vitorino retirou da sua carteira os duzentos cruzados combinados, estendeu o dinheiro ao paraguaio que o recusou dizendo, agora em espanhol truncado:
— “Son seizentos grussados, señor”.
— Mas isto é um assalto, protestou o Vitorino que também mudou de língua. Você não disse duzentos cruzados agorinha há pouco?
— “Zi señor. Mas esse costo del puerco vivo mas esso muerto y limpo son seiszentos incluyendo a la cuia del alumineo”, informou.
A comitiva do Vitorino já se preparava toda para partir para a briga quando viram aqueles homens que no início fugiram para o mato e agora os cercavam com suas mãos escondidas não se sabia onde.
O jeito foi pagar e sair dali bem depressinha.
À noite, quando estávamos em volta do fogão e aquele leitãozinho cheirava a léguas de distância, chegou a polícia florestal.
— Boa noite senhores, cumprimentou aquele que parecia ser oficial. Nos dêem licença para examinar o acampamento.
E ele mesmo retirou a sua espada e com ela levantou a tampa da panela de porco pela alça e perguntou:
— Isso aqui é capivara?
— Não senhor, protestou o Vitorino Dota. É porco e pagamos caro por ele.
O oficial com uma certa cara de gozação perguntou de novo:
— Estão me dizendo que vocês caíram no conto do porco paraguaio? Não vão querer fazer BO e nos criar um problema internacional aqui por causa de um porco, vão?
Os florestais foram embora, a calma parecia voltar para aquele lugar quando uma bala, provavelmente de fuzil, cortou os ares e passou assobiando sobre a nossa casa e, devido a distância do disparo, o seu ruído veio das bandas do Paraguai, só ouvimos depois. Era o toque de silêncio.
Eurico de Oliveira , aposentado, pescador e contador de histórias.