A crise no setor de pediatria da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) fará mais uma vítima a partir de segunda-feira. O Pronto-Socorro (PS) da Vila Ipiranga deixará de atender emergências infantis das 23h às 7h, em razão da falta de profissionais nos quadros da prefeitura. Quem precisar de socorro médico durante a madrugada terá à disposição uma ambulância que levará o paciente até o Pronto-Atendimento Infantil (PAI), no Centro.
O secretário municipal da Saúde, Hanna Georges Saab, afirma que esse esquema de funcionamento é temporário e ficará em vigor até que o quadro de pediatras da prefeitura se normalize. “Todos sabem que estamos com dificuldades para contratar médicos, mas domingo iremos realizar um novo concurso e há candidatos inscritos”, argumenta.
O problema é que, nos concursos públicos realizados anteriormente pela SMS, nem todas as vagas têm sido preenchidas e alguns deles não têm conseguido atrair sequer candidatos.
Além disso, a saída de profissionais que já atuam no setor vem agravando a situação. A secretaria conta atualmente com cerca de 40 pediatras, mas estima que precisaria de pelo menos mais 15.
Saab garante, no entanto, que a suspensão do atendimento infantil durante a madrugada será adotada apenas no PS da Vila Ipiranga e que as unidades do Jardim Bela Vista e Núcleo Mary Dota continuarão contando com pediatras das 23h às 7h.
Revolta
Apesar da SMS anunciar que o novo horário de funcionamento para emergências infantis do PS Ipiranga é temporário, a notícia causou a revolta da vice-presidente do Conselho Gestor da unidade, Miriam Vecchi Rodrigues. “A viatura da prefeitura sempre percorre outros PSs antes de ir para o Centro. Se tiver uma criança passando mal, ela pode até morrer”, diz.
Rodrigues também critica outra decisão anunciada pela SMS, a de que os pediatras que estiverem de plantão no PS Ipiranga irão responder pelas consultas agendadas e pelas emergenciais. “Se chegar alguma criança com um problema mais urgente, ela será avaliada e enviada para o PAI. Nossa população é carente e precisa ser atendida aqui”, reclama.
O secretário da Saúde afirma que as medidas restritivas adotadas no PS Ipiranga foram tomadas porque a unidade é a que apresenta menor demanda de pacientes infantis.
Já a vice-presidente do Conselho Gestor acredita que se trata de uma represália à decisão do órgão de não permitir que a unidade fechasse para reforma, como queria a prefeitura. “Não aceitamos essa proposta porque eles não apresentaram nenhum projeto, orçamento ou cronograma”, alega.
O PS Ipiranga substituiu o PAI durante os sete meses em que o prédio do Centro ficou em reforma. Após a sua reabertura, a prefeitura cogitou iniciar a remodelação da unidade do bairro, mas o Conselho Gestor reagiu contrariamente, temendo que se tratasse de uma desculpa para fechar o pronto-socorro.
Embora negasse que o PS Ipiranga pudesse encerrar as atividades, o secretário da Saúde decidiu acatar a decisão do Conselho Gestor e desistiu de reformá-lo.
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Estrutura não é adequada
Uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) determina regras básicas de funcionamento para uma unidade de pronto-socorro, como médicos de cinco especialidades e equipamentos para atendimento de urgência. Em Bauru, apenas o PS Central se enquadra nas normas do órgão.
As carências dos PSs do Jardim Ipiranga, Jardim Bela Vista e Núcleo Mary Dota são admitidas pelo próprio secretário municipal da Saúde, Hanna Georges Saab. “As nossas unidades não são PSs, e sim pronto-atendimentos. A unidade que funciona corretamente é o PS Central, que conta com anestesistas e todos os recursos que o CFM exige”, comenta.
Embora não sirva de consolo, já que a falta de recursos básicos nos PSs deve ser encarada como uma situação vergonhosa, o quadro encontrado nas unidades de atendimento emergencial de Bauru não difere daquele visto na maioria das cidades do Estado.
Um levantamento do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), divulgado no ano passado, aponta que 68,7% dos PSs vistoriados não contava com enfermarias adequadas, 62,5% não tinham apoio externo e, em 13,8% deles, os médicos realizavam mais de quatro consultas por hora.