Regional

Pesquisa 'revela' gravidez na adolescência

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu – Uma pesquisa realizada no Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (100 quilômetros a Sudeste de Bauru) enfoca o tema gravidez na adolescência sob uma perspectiva sociológica e mostra que ela também ocorre como opção da jovem para mudar de vida.

De acordo com a socióloga Margareth Aparecida Santini de Almeida, autora do trabalho, na maioria dos estudos a menina quase sempre é figurativizada como vítima de uma condição indesejada. Margareth, no entanto, discorda dessa tese, com base nas entrevistas coletadas para a sua pesquisa. “No grupo estudado, a ocorrência da gravidez, para algumas adolescentes, já fazia parte de um projeto de vida”, enfatiza. As informações são da assessoria de imprensa do portal da Unesp.

A tese de doutorado intitulada Treze meninas e suas histórias... um estudo sobre mães adolescentes foi realizada em dois momentos. No primeiro, considerado pela pesquisadora como quantitativo, foram entrevistadas 150 jovens grávidas, atendidas em unidades básicas de saúde, órgãos mantidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de caracterizar as condições de vida das adolescentes. O segundo momento aconteceu cerca de 15 meses após o nascimento das crianças e se restringiu a uma análise qualitativa de um grupo de 13 mães.

Foi possível observar, diz Margareth, que a maioria das adolescentes já não estava mais estudando por ocasião da gravidez. Pelos relatos, pôde-se verificar que o próprio sistema de ensino tem uma grande responsabilidade por esse processo, seja pela não-adequação ensino/aluno, levando este último a uma falta de estímulo. Já para quem sempre viu nos estudos a possibilidade de ascensão social, a gravidez não é considerada como um empecilho à continuidade dos mesmos.

A gravidez aparece como um motivo de abandono definitivo da escola quando ela já não conta mais nos planos de vida das adolescentes. “A escolaridade obtida parece ser suficiente para o novo projeto delineado, ou seja, de casar e constituir família”, comenta Margareth. Ela destaca que, neste caso, a escolha das jovens revela as condições sociais. “Elas reproduzem o papel social do qual suas mães se ocupam. Casar, cuidar dos filhos e realizar trabalhos domésticos”, comenta.

Segundo o estudo, antes do casamento as jovens dividiam moradias, às vezes precárias, com os pais e irmãos, entre outros parentes. Ainda entre as entrevistadas, uma morava na residência onde trabalhava como doméstica.

Relato

No estudo, Margareth cita o relato de algumas meninas. Em um deles, a entrevistada de 14 anos dizia “não vejo a hora de arrumar um marido logo, para não ficar fazendo serviço de casa.” A menina se referia aos serviços domésticos que realizava. “Para elas, o casamento representava autonomia de vida”, analisa a socióloga. No momento da gravidez, quatro garotas já estavam em união e cinco namoravam havia já algum tempo. A gravidez foi inesperada apenas para quatro garotas. “Nesses casos, o fator que determina o sucesso da reorganização da vida é o apoio da família”. “Muitas vezes, os recém-nascidos ajudam a aproximação entre pais, filhos e netos”.

Foi o que contou, por exemplo, uma jovem mãe, de 16 anos, enquanto amamentava seu segundo filho na maternidade do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Unesp. Diana, nome fictício, começou a namorar aos 13 anos. Já não tinha pai e a mãe saia diariamente para trabalhar. Sem apoio familiar, sentia-se muito só.

Diana conta que hoje sua vida é melhor, pois antes não tinha nem com quem conversar e a mãe, com o nascimento das crianças, está mais presente. Embora esse caso não esteja entre os estudados pela socióloga Margareth, ele ilustra bem alguns casos da pesquisa.

Diante de realidades diversas, diz a pesquisadora, não é possível interpretar a gravidez adolescente de maneira homogênea. “Ao se abordar esse tema é importante considerar que as adolescentes que passam por tal experiência pertencem a segmentos sociais diferentes, com práticas, representações e identidades também diversas”, conclui.

Comentários

Comentários