O evento que oficializou a posse de Rogelio Golfarb na presidência da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) para a gestão 2004-2007, realizado no último dia 19, no Palácio dos Bandeirantes, na Capital paulista, trouxe à tona uma realidade que, mesmo não sendo nova, demonstra a dramática situação do setor automobilístico nacional.
Em entrevista coletiva à imprensa, Golfarb traçou um raio-x do segmento, expondo suas mazelas e dificuldades que o acompanham há anos e comprovam o delicado momento da atividade, uma das maiores geradoras de empregos, renda e investimentos no País
Os maiores problemas citados por Golfarb foram a retração do mercado e a alta ociosidade de produção das montadoras, que prejudicam a rentabilidade e limitam as exportações. “Basta verificar que, somadas, as vendas internas e externas atingem apenas 57% da capacidade instalada nas montadoras”, ressalta o presidente.
As conseqüências deste panorama, conforme Golfarb, são ainda mais terríveis, como a queda de competitividade, falta de retorno e contingenciamento de investimentos, perigo de desatualização dos produtos e risco da perda de aportes financeiros para outros países.
Por isso, o novo líder da Anfavea considera que o País tem desafios a superar nos indicadores de consumo e de produção para o mercado automotivo nacional deslanchar. “Seja na área interna ou externa, há vários deles que devem ser encarados”, sustenta Golfarb.
No consumo, ele refere-se à estagnação do emprego, ao custo elevado do crédito e a perda de poder aquisitivo do consumidor. Já no nível produtivo, Golfarb cita o aumento dos custos de insumos, provocados em grande parte pela ociosidade das fábricas, as dificuldades de repasse aos preços dos aumentos das despesas e o mercado interno em queda como os principais obstáculos ao desenvolvimento.
O presidente acrescenta, ainda, que o País também tem problemas externos a encarar, como o crescimento dos países asiáticos, principalmente a China, Índia e Coréia do Sul, e a incorporação de nações do Leste europeu à União Européia. “São novos competidores que podem fazer os investimentos e as exportações se redirecionarem para lá”, adverte Golfarb.
Por isso, conforme o executivo, o segmento automotivo nacional só terá sustentabilidade real quando o mercado interno atingir a venda de 2 milhões de unidades/ano e uma ocupação mínima de 80% da capacidade produtiva. “Só assim é possível retorno adequado aos investimentos e crescimento das exportações”, defende.
Mas para que isso ocorra, segundo Golfarb, há uma série de fatores condicionantes. Entre outros, ele considera fundamentais o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 3% e 3,5% ao ano, a estabilidade cambial, o controle da inflação, juros em queda, redução da carga tributária, desoneração dos custos das exportações e facilitação do crédito ao consumidor.
Entretanto, o presidente da Anfavea revelou ainda não ter um plano elaborado para apresentar ao governo, mas disse que as propostas devem estar aliadas ao cenário econômico. “A indústria tem de ser pró-ativa. Descartamos propostas que precisem simplesmente de queda de juros. Temos de elaborar algo mais profundo, mas não tenho a fórmula no momento para dar. Temos de fazer nossa lição de casa”, ressalta.
Apesar disso, ele defende a adoção de políticas para o setor automotivo que sejam duradouras. Em sua avaliação, planos emergenciais tendem a criar “bolhas” de consumo que são efêmeras. “Preferiria não ter de ir ao governo buscar pacotes desta natureza. Desejo acordos duráveis, sustentáveis, que atraiam investimentos e gerem crescimento”, conclui.
____________________
Revendas
A “receita do bolo” sugerida pelo presidente da Anfavea, Rogelio Golfarb, para o desenvolvimento do mercado automotivo nacional divide opiniões entre os integrantes de concessionárias bauruenses.
O gerente de vendas de uma agência Volkswagen, Renato Tambara Neto, concorda com todos os fatores condicionantes citados por Golfarb para o crescimento sustentável e, principalmente, com a disposição de elaborar planos duradouros em detrimento dos emergenciais. “Estes, realmente, criam bolhas de consumo que logo se desfazem”, destaca.
Renato acrescenta que tais acordos funcionam como um balde de água em um enorme incêndio. “E, quando este é debelado, ninguém se preocupa em construir a casa depois”, compara.
Para comprovar seu raciocínio, ele recorda o desempenho das vendas em 2003, quando foram influenciadas pelo plano de redução das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “O primeiro semestre foi desastroso e, após a diminuição do IPI, tivemos até bons meses de comercializações. Mas, passada a vigência do acordo, retomamos a estagnação”, diz.
Por isso, e mesmo ainda afirmando não ter opinião formada a respeito, o gerente ressalta que uma eventual redução do IPI para os veículos bicombustíveis também não será uma solução para o crescimento do mercado. “Mais importante que isso seria a adoção de um programa sério de renovação da frota, pois há muitos carros velhos rodando no País”, enfatiza Renato.
Já Jorge Simão Neto, gerente de uma concessionária Ford, diz que o incentivo tributário aos modelos multicombustíveis pode ser uma saída emergencial para o mercado. “Não vislumbro outra possibilidade, pois as demais medidas defendidas pela Anfavea são necessárias mas difíceis de serem postas em prática em virtude da lentidão governamental e de complexas mudanças econômicas”, critica.
Para o gerente, o fato de nem todas as montadoras dominarem a tecnologia flex fuel, uma das alegações da Anfavea para não adotar o estímulo do imposto, também não é empecilho. “Há muitas maneiras de se viabilizar isso, como a troca de tecnologia entre as fábricas”, pondera.
Segundo Jorge, caso o atual panorama mercadológico permaneça, as conseqüências podem ser terríveis. Para ele, não há como negar que as montadoras nacionais precisam de auxílio, pois operam no prejuízo há vários anos. “Creio que os produtos correrão o risco de desatualização e sucateamento, além do perigo de fábricas saírem do País”, alerta.