Pesquisa inédita do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no País mostra que educação e trabalho são os temas que mais despertam interesse e preocupação entre os jovens atualmente, com 38% e 37% das respostas, respectivamente. Ao contrário do esperado, drogas (com 7%) e sexo (6%) estão bem abaixo no ranking.
Para o gerente da Unidade de Educação e Desenvolvimento da Cultura Empreendedora (Uedce) do Sebrae, Ênio Duarte Pinto, o resultado da pesquisa surpreende na medida em que vai contra os estereótipos da juventude desinteressada em temas próprios da “vida adulta”. Ao mesmo tempo, causa preocupação a constatação de que 74% dos jovens brasileiros estão desocupados.
A solução, diz Ênio Pinto, é incentivar a cultura do empreendedorismo entre os jovens, ou seja, mostrar que o caminho para o ingresso no mercado de trabalho não passa necessariamente pela obtenção de um emprego. Ao contrário: cuidar do próprio negócio traz liberdade para o jovem, já que permite a ele implantar sua própria cultura de organização. No entanto, apenas 2% dos jovens são empreendedores, segundo a pesquisa.
O levantamento, chamado Perfil da Juventude Brasileira, é uma iniciativa do Instituto de Cidadania, em parceria com o Instituto de Hospitalidade e Sebrae. As entrevistas foram realizadas entre novembro e dezembro de 2003 com 3.501 pessoas entre 15 e 24 anos, em 198 municípios de 25 Estados. A seguir, os principais trechos da entrevista que Ênio Pinto concedeu ao Jornal da Cidade:
Jornal da Cidade - Descobrir que educação e trabalho são os principais interesses dos jovens brasileiros atualmente foi mesmo uma surpresa?
Ênio Duarte Pinto - Existe um certo paradigma em relação ao jovem entre 15 anos e 24 anos, de que ele está relativamente mais preocupado com questões mais efêmeras, mais banais. Claro que se aproximando mais da faixa dos 24 anos nem tanto, mas o jovem mais novo, sim.
E foi uma grata surpresa ficar constatado na pesquisa que o jovem, na verdade, tem seu interesse e suas preocupações voltados principalmente para as questões do trabalho e da educação. Isso foi muito positivo.
Por outro lado, ficou constatado também que 40% desses jovens estão completamente desocupados. Se você incluir nessa estatística aqueles que estão desocupados e que nunca procuraram emprego, esse percentual sobe para 74%. É uma população significativa, porque de 15 anos a 24 anos nós temos 34 milhões de indivíduos. E 74% desses indivíduos estão desocupados, apesar de ter na questão profissional seu principal interesse.
JC - Essa frustração em grande escala deve ser encarada como algo preocupante?
Pinto - Isso traz muita ansiedade para o jovem. São muitas dúvidas em relação ao futuro para uma população que ainda não tem sua auto-estima muito bem trabalhada. Isso é um agravante.
À luz disso, o Sebrae, que tem como missão o desenvolvimento do País através da micro e pequena empresa, tem o desafio de disseminar junto a esse público a cultura do empreendedorismo. Fazer esse jovem, em dificuldade pela baixa qualificação e pela falta de experiência, ingressar na sociedade produtiva não como empregado e sim como empregador, como empreendedor, dono do seu próprio negócio, é o desafio do Sebrae.
JC - Se cruzarmos os dados de que 74% dos jovens estão desocupados e 64% querem trabalhar por necessidade, chegamos a um quadro ainda mais grave, não?
Pinto - Eu não gosto da palavra “necessidade”. Eu prefiro que eles se dirijam à questão do emprego com a preocupação de crescimento, da auto-estima, da auto-realização. Parece que o trabalho por necessidade é assim: “Por mim eu não faria nada da vida”. O próprio empreendedor brasileiro é assim. Nós temos uma taxa de empreendedorismo elevada, mas com baixa qualidade, porque quase a maioria, 43%, empreende por necessidade, por questão de sobrevivência, e não porque enxergou uma oportunidade concreta de negócio, um nicho com potencial a ser explorado. Isso é preocupante.
JC - Com a alta taxa de desemprego no País, inclusive para a população adulta, falar em abrir o próprio negócio não é um idealismo?
Pinto - Eu penso que não. O pai do marketing, Philip Kotler, tem uma reflexão assim: quando você empreende dentro de uma atividade que lhe dá prazer, que dá satisfação pessoal, você se compromete. Com o comprometimento você tende a fazer bem feito. E o que é bem feito sempre aparece alguém disposto a remunerar, e você tem como consequência resultados financeiros, lucro. Então ele fala o seguinte: o lucro é um subproduto de coisas bem feitas. Você tem que ter envolvimento, tem que gostar do está fazendo.
JC - Como despertar isso nos jovens? É possível abranger esse universo?
Pinto - O Sebrae tem investido fortemente em projetos de capacitação à distância. Hoje temos radionovela, telenovela, programas pela Internet, como o desafio Sebrae para jovens. Estamos lançando mão de tecnologias de educação de massa para poder disseminar e capacitar os jovens a empreender. Em função disso a gente tem uma perspectiva muito boa.
No ano passado nós veiculamos uma novela que tinha como objetivo sensibilizar para a questão de empreender e dando algumas noções de técnicas de empreendedorismo, e chegamos a 19 milhões de ouvintes, para uma primeira experiência. A proposta é essa: usar alternativas de educação à distância.
JC - Como o senhor avalia o programa Primeiro Emprego, do governo federal?
Pinto - O Sebrae participa do programa “Primeiro Emprego” com um projeto chamado “Jovem Empreendedor”. Porque você pode ter na sua primeira atividade profissional a função de empregado ou de empregador, abrir uma pequena oficina, mesmo que seja de fundo de quintal, mesmo um pequeno negócio informal, de baixo investimento. Você pode considerar essa alternativa.
O Sebrae precisa combater as dificuldades em relação ao emprego dentro do que ele sabe fazer, que é apoiar pequenas empresas.
JC - Esse programa já começou?
Pinto - Nós estamos na concepção final do programa, concluindo os módulos de capacitação. Devemos lançar o programa dentro de 45 dias.
JC - Mas e quanto ao Primeiro Emprego, é um projeto adequado?
Pinto - É uma primeira inciativa. Eu acho que temos colocar o avião em pleno vôo e ir fazendo os ajustes durante o vôo, porque não dá mais para esperar. A constatação de que 74% dos jovens estão numa condição de desemprego e mesmo o restante estar numa condição de informalidade é crítica. E nós estamos falando do futuro do “País do futuro”.
JC - O jovem também demonstrou interesse na educação. Imagino que ele queira ter acesso ao ensino superior, se especializar. Sem renda, como isso pode ser concretizado?
Pinto - Quando a gente fala em educação não é só ter foco na questão de ter nível superior. A preocupação é quanto à qualificação para que depois ele possa ingressar na sociedade produtiva. E essa qualificação não está necessariamente na obtenção de um diploma de nível superior. Nós temos 8,7 milhões de jovens no ensino médio e apenas 2,7 milhões ingressam nas universidades. Boa parte desse público vai direto para o mercado de trabalho. A gente tem colocado disciplinas de empreendedorismo nas escolas de ensino médio também, para que o jovem se qualifique a empreender ao final de seu período escolar, mesmo que não vá seguir em frente num curso superior.
A proposta é gerar felicidade, tornar o jovem sujeito de sua vida, e não objeto. E isso pode ser feito sem nível superior, através de um empreendimento.
JC - Em que áreas o senhor vê mais possibilidades para o jovem empreender?
Pinto - A gente não pode assumir o risco de dizer: “Empreenda nessa área que é uma boa”. No que os jovens estão empreendendo hoje é comércio e serviços. Praticamente não tem indústria, justamente porque necessita de investimentos maiores. E na área de comércio e serviços predominam bares e restaurantes, pequenas mercearias, lanchonetes, que atendem a comunidade. São empreendimentos com baixo conteúdo tecnológico, com baixas possibilidades de expansão e geração de emprego, infelizmente.