Um convênio firmado no final do ano passado entre a Prefeitura Bauru, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), a Rede Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) e a ferrovia Novoeste S.A. (que na época da privatização se tornou concessionária da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB), irá garantir a preservação da história ferroviária na cidade. Através do acordo, foram cedidos 455 bens ao Museu Ferroviário Regional.
Entre eles, armários, cadeiras, sofás, relógio carrilhão, mesas, tapetes e bancos, entre outras peças utilizadas não apenas dentro dos trens, mas também nas estações e salas administrativas. Produzidos entre as décadas de 20 e 40, a maior parte dos móveis são entalhados em madeira, alguns trazem detalhes em marchetaria e são considerados verdadeiras relíquias.
Esse acervo histórico pertence a RFFSA e estava, desde 1996, sob a guarda da Novoeste. Com o processo de liquidação, houve grande preocupação em relação ao destino desses objetos. “Por ser uma empresa de economia mista, a Rede tem que alienar todos os bens para poder indenizar todos os seus acionistas. Mas os bens históricos são bens que devemos preservar”, afirma a engenheira civil Maria de Fátima Vargas Fróes, que é responsável pelo Grupo de Trabalho de Bens Históricos da RFFSA.
Ela esteve em Bauru semana passada para agilizar a entrega dos bens ao Museu Ferroviário. “A assinatura do convênio foi firmada no dia 3 de setembro do ano passado, mas devido a alguns problemas, como a troca de governo, houve essa postergação e somente alguns móveis foram entregues. Além disso, era preciso reunir todos os bens”, explica Maria de Fátima.
De acordo com a engenheira, os objetos estão guardados em diferentes locais da cidade. “Uma parte do acervo já está no Museu Ferroviário, outra na Novoeste e algumas peças no escritório na regional da Rede Ferroviária, que fica ao lado do museu”, diz. Os bens foram cedidos ao município a título precário, ou seja, eles pertencem à RFFSA, mas a preservação histórica e cultural desse acervo fica a cargo da prefeitura.
“Esses bens representam a história da cidade e o convênio vai preservar a identidade cultural da cidade”, aponta o secretário municipal de Cultura, Sérgio Losnak. Parte dos 455 itens relacionadas no acordo já estão em exposição no Museu Ferroviário. Entre elas, mesa, cadeira, relógio carrilhão e aparelho de staff. Os outros objetos deverão ser organizados em mostras temporárias. Segundo Losnak, as exposições serão realizadas em breve e todas serão abertas à população.
Ações culturais
Além da realização do convênio de cessão dos bens da RFFSA, a SMC desenvolve diversas ações com o intuito de resgatar a importância da história ferroviária. Uma delas é o projeto “Ferrovia Para Todos”, que teve início em 2001.
A primeira atividade do projeto é o desenvolvimento da pesquisa “Nos trilhos da memória: ferrovia e ferroviários”. Realizado em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), o estudo tem orientação do professor Célio Losnak e se baseia em depoimentos de ex- ferroviários como matéria-prima para a elaboração de livros relacionados ao tema.
A restauração de locomotivas e vagões é outro destaque do “Ferrovia Para Todos”. A famosa maria-fumaça 278, de 1919, e o carro passageiro S-22, de 1943, foram totalmente restaurados por um grupo de marceneiros. O carro-dormitório O-1, de 1932, já teve sua parte externa reformada. Ele foi apresentado à população sexta-feira, durante um evento realizado no Museu Ferroviário em homenagem ao Dia da Ferrovia.
Juntamente com o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac), o projeto também realizou o tombamento de bens móveis e imóveis históricos. Entre eles o prédio e todo o acervo do Museu Ferroviário, a estação ferroviária de Val de Palmas, a maria-fumaça, locomotivas a diesel, elétrica e uma locomotiva Yung, além de sete vagões (quatro carros-dormitórios, um de passageiros, um de bagagens e um restaurante).
Para contribuir com as ações do Codepac, neste mês foi fechado um termo aditivo entre a prefeitura e a Unesp. Por meio desse acordo, um grupo de alunos do curso de arquitetura da Unesp irá listar imóveis do interesse do conselho e da cidade.
O “Ferrovia Para Todos” é desenvolvido em parceria com a Novoeste S/A, Jornal da Cidade e 96 FM.
• Serviço
O Museu Ferroviário Regional está aberto para visitação de terça a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados e domingos, das 8h às 13h. Rua Primeiro de Agosto, quadra 1. Informações: (14) 3235-1176.
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Estradas de ferro no Brasil
A primeira concessão para o transporte ferroviário no Brasil ocorreu no dia 30 de abril de 1854. Nessa data, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), mais tarde Barão de Mauá, recebeu a autorização do Governo Imperial para a construção e exploração de uma linha férrea no Rio de Janeiro. Ela se localizava entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara, e Raiz da Serra, próximo a Petrópolis.
Irineu foi o responsável por lançar os primeiros trilhos no Brasil e também a primeira locomotiva, denominada “Baroneza”, construída na Inglaterra. A primeira seção, composta por 14 quilômetros e meio, foi inaugurada por Dom Pedro II, em 1854. Denominada Estrada de Ferro Mauá, ela permitiu a integração das modalidades de transporte hidroviário e ferroviário, introduzindo a primeira operação intermodal do Brasil.
Anos mais tarde, foram implantadas diversas estradas de ferro no País, proporcionando a descoberta de novas áreas e contribuindo para o progresso nacional. A maior parte delas se desenvolveu no Estado de São Paulo, na época do ouro. Além das ferrovias já citadas, se destacaram a Cia. Mogiana de Estradas de Ferro e a Estrada de Ferro Central do Brasil.