Adeptos da alimentação orgânica que gostam de pinga têm um motivo a mais para comemorar: a cachaça orgânica. Testado há cerca de dois anos, o produto é confeccionado de forma artesanal e totalmente livre de agrotóxicos e outros produtos químicos. A iniciativa é de um bauruense que segue a tradição de família e agora está abrindo as portas para o mercado estrangeiro.
O produtor rural Ronaldo Polido Padilha, 60 anos, conta que iniciou as pesquisas com a cachaça orgânica há cerca de dois anos e sem nenhuma pretensão comercial. Ele afirma que adquiriu uma sítio no município paulista de Natividade da Serra, no Vale do Paraíba.
Ele percebeu que a cana da região era muito boa, comprou uma moenda simples, montou um pequeno alambique e resolveu fazer cachaça. Ele aproveitou a técnica aprendida com o avô e somou a ela conhecimentos obtidos junto a universidades e pesquisadores. “O resultado é uma cachaça totalmente ecológicaâ€, garante.
Segundo o produtor, a cana é cultivada sem qualquer tipo de agrotóxico. “Ela é adubada com restos de bagaço e humus (esterco de minhoca), que nós mesmos produzimos. Como reforço da terra, aplicamos vinhoto - que é um produto que sobra do processo de destilação do caldoâ€, explica.
Toda a cana é colhida manualmente, sem queimadas. Depois ela é moída e colocada em dornas de aço inoxidável para a fermentação. “O fermento também é natural, feito com uma bactéria cultivada numa base de fubá. No ponto correto, nós retiramos o caldo e colocamos numa panela de cobre para ferver, cuidando para que a temperatura não ultrapasse os 84 grausâ€, detalha.
Padilha explica que acima desta temperatura, o caldo da cana desprende aldeídos e acetato - substâncias que alterariam o sabor e a qualidade da cachaça. “Pesquisas científicas mostram que são essas substâncias que deixam a cachaça com sabor ardido e que causam queimação e dor de cabeça. Nossa produção vigia a temperatura para que isso não ocorraâ€, orgulha-se.
De acordo com o produtor, o intervalo entre o corte da cana e a destilação da cachaça é de aproximadamente 48 horas. “Isso também é importante, porque um período muito longo de armazenagem da cana já cortada facilitaria a contaminação por fungos e bactérias, o que também alteraria o sabor da bebidaâ€, comenta.
Depois de muitos testes, Padilha conta que conseguiu encontrar a melhor bebida há cerca de um ano. Começou vendendo entre os amigos, depois para hotéis e bares finos. Informado sobre o valor dos produtos artesanais no Exterior, ele mandou amostras para a Europa por meio de amigos e agora lança o produto envasado em garrafas diferenciadas para exportação.
“Mas estamos começando devagar porque a confecção é artesanal e nossa produção é de 100 litros por dia. Temos que seguir esses padrões para manter a produção ecológica e a qualidade da cachaça. Nos últimos três meses já mandamos cerca de 1.000 garrafas para o Exteriorâ€, informa.
As Cachaças Padilha são produzidas em dois sabores - prata e ouro. Prata é a bebida de sabor convencional. Ouro é a cachaça envelhecida em barris de carvalho, que dão uma cor amarelada e gosto característico ao produto. “E já estamos preparando um terceiro sabor - a cachaça envelhecida em barris de bálsamo, que dão à bebida um aroma semelhante ao licor de pequi. Devemos começar a vendê-la daqui a seis mesesâ€, adianta.
As Cachaças Padilha são consideradas bebidas finas e, por isso, são vendidas quase exclusivamente por distribuidores deste tipo de bebida. Em Bauru, ela pode ser encontrada no Comprando, no supermercado Trigale e no Bar do Skinão.
Uma história de 84 anos
A produção das Cachaças Padilha dá continuidade a uma tradição familiar que já tem 84 anos. De acordo com o consultor econômico Roberto Polido Padilha, 64 anos, o patriarca da família, Antonio Padilha, imigrou da Espanha em 1920.
“Tão logo chegou a Bauru, firmou-se como fazendeiro bem-sucedido. Abriu o Bar e Restaurant Crystal para comércio de secos e molhados - que supria os colonos da fazenda e a população da cidade - e abriu a primeira fábrica local de bebidas quentes (destiladas)â€, conta.
O imigrante e seus estabelecimentos tornariam-se tradicionais na cidade, pontos de encontro dos formadores de opinião da época, segundo Roberto. “Quis o destino que, 84 anos depois, meu irmão (neto de Antonio Padilha) estivesse hoje produzindo cachaça tambémâ€, comemora.
A família Padilha tornou-se tão importante no cenário sócio-político da cidade, que está registrada no livro “Nos tempos do Bar e Restaurant Crystal - A história dos irmãos Padilhaâ€, lançado em 1996 como parte das comemorações do centenário de Bauru.
“Na época do centenário, o artista plástico Walter Mortari, muito amigo da família, pintou um quadro com a fachada do Crystal e os quatro irmãos Padilha - entre eles Antonio Padilha Filho, nosso pai - como uma aura sobre o bar. A obra ilustrou a capa do livro e hoje está no rótulo das Cachaças Padilha, vendida no Brasil e no Exterior com o título de tradição familiarâ€, encerra.