Economia & Negócios

Cesta básica equivale a 75% do mínimo

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

De acordo com levantamento mensal do Data-ITE, o preço mínimo da cesta básica em Bauru fechou em R$ 195,41 em abril. Na comparação com o mês anterior há uma queda de 1,6%, contudo, o valor registrado em abril compromete 75,15% do salário mínimo do trabalhador brasileiro, que desde sábado passou a ser de R$ 260,00. Na comparação com o mesmo período do ano passado, houve alta de 3,5% no preço mínimo da cesta.

Segundo aponta o economista e coordenador da pesquisa do Data-ITE Reinaldo Cafeo, a situação fica ainda mais grave quando se observam os cálculos dos preços médio e máximo da cesta básica na cidade: R$ 244,66 (comprometimento de 94% do salário mínimo) e R$ 302,99, respectivamente. Soma-se a isso o fato de que, segundo pesquisa realizada no ano 2000, em Bauru a média da renda mensal per capita é em torno de R$ 500,00.

Também é importante ressaltar que o valor mínimo só é alcançado quando o consumidor adquire todos os produtos que compõem a cesta básica pelo menor preço de comercialização, ou seja, pesquisando todos os supermercados e comprando os itens mais baratos em cada um deles.

“Quando divulgamos os valores mensais da cesta básica, as pessoas ‘não acreditam’ que a variação sobre o mês anterior ou sobre o ano passado foi tão pequena, ou que houve queda. Isso ocorre porque, na prática, a população vem sentindo no bolso uma situação que vem de longe. Em dois anos houve um repique da inflação em torno de 40%, enquanto que os trabalhadores têm conseguido reajustes salariais baixíssimos. Ou seja, a perda do poder aquisitivo foi muito grande, e é isso que as pessoas sentem”, avalia Cafeo.

De acordo com ele, a queda de preço em abril na comparação com o mês anterior é uma situação localizada, já que não existe um cenário de reposição de renda. “Isso quer dizer que, nem de longe, a redução de um mês para outro compensará a alta verificada nos dois últimos anos. Os preços estão mais altos do que num passado recente, mas por outro lado, o achatamento da renda da população faz com que eles cheguem num patamar, que vem se mantendo desde o ano passado.”

De acordo com a pesquisa do Data-ITE, em abril houve queda de valor nos três grupos de produtos analisados na comparação com março deste ano. Essas reduções foram de 0,5% no grupo alimentação (R$ 144,22 contra R$ 145,05); 5,8% no grupo limpeza doméstica (R$ 31,17 contra R$ 33,11) e de 2,3% no de higiene pessoal (R$ 20,02 contra R$ 20,51).

Em contrapartida, na comparação dos últimos 12 meses houve alta nos três grupos: 2,9% no de alimentação - que representa cerca de 70% do total da cesta básica, 6,9% no de limpeza doméstica e 2,6% no grupo dos produtos de higiene pessoal.

Segundo Cafeo, a tendência a partir de agora é que alguns produtos típicos do inverno tenham alta nos supermercados. Por isso, é importante ficar atento e usar a criatividade para “fugir” deles ou substituí-los por similares ou por marcas secundárias mais baratas. Em abril, os produtos da cesta básica ficaram, na média, abaixo da inflação - cujo índice acumulado nos últimos 12 meses foi de 4,47% segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe.

“Algumas orientações antigas e tradicionais também continuam valendo, como fazer pesquisa de preços nos supermercados. Isso porque, mês a mês, continuamos verificando durante as pesquisas muitas discrepâncias de valor entre diversos produtos. Em abril, os destaques na variação entre o mínimo e o máximo foram encontrados na cebola (diferença de 264,9%), lingüiça fresca (161,7%), no feijão (151,9%), no alho (115,6%) e no papel higiênico fino (96,9%)”, observa o economista.

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Questão política

Para o economista e vice-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Reinaldo Cafeo, a falta de uma política mais abrangente do governo não permitiu um aumento maior do valor do salário mínimo, que poderia chegar a R$ 290,00, na opinião dele.

“O novo salário mínimo está distante de dar poder de compra para uma família formada por quatro ou cinco pessoas. O grande problema do mínimo é que ele tem um limite na questão que envolve a Previdência Social. Desde que o atual governo assumiu, realizou, sim, uma pequena reforma da Previdência que terá reflexos ao longo do tempo. Contudo, não foi capaz de redesenhar o orçamento público de forma a permitir um colchão de recursos maior para também oferecer um retorno maior à população.”

Para Cafeo, é importante o governo realizar um pacto com a sociedade para estudar o problema do salário mínimo independentemente da Previdência Social, buscando a viabilidade de aumentar o valor dentro do próprio orçamento da União.

“Se isso não for feito, sempre será uma ilusão dobrar o valor do salário mínimo. É claro que o crescimento da economia influencia, porque isso gera aumento da arrecadação. Mas também é possível usar a criatividade para garantir o incremento do salário mínimo”, assinala.

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