Bairros

Cetesb: Tangarás está livre de chumbo

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Após dois anos convivendo com o fantasma da contaminação por chumbo, os moradores do Jardim Tangarás finalmente recebem uma boa notícia: a área habitada está livre dos prejuízos provocados pela poluição emitida quando o setor metalúrgico da empresa de baterias Acumuladores Ajax, localizado perto do bairro, funcionava. Ele está interditado desde janeiro de 2002.

A informação foi divulgada ontem, durante entrevista coletiva com o presidente da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Rubens Lara, que esteve ontem em Bauru em visita à agência local para divulgar o resultado do estudo sobre a qualidade das águas subterrâneas.

Na oportunidade, o resultado dos laudos referentes à última coleta de amostras de terra coletadas num raio de um quilômetro do setor metalúrgico tornou-se público. Os dados mostram que as ações emergenciais adotadas para a descontaminação da área habitada, como raspagem do solo, aspiração de frestas e arestas de portas e janelas das casas, além da limpeza de caixas d’água, surtiram efeito.

Na região habitada, a Cetesb constatou que o índice de contaminação é inferior a 100 miligramas de chumbo por quilo de terra, numa raspagem do solo realizada até dois centímetros de profundidade. Se a quantidade de chumbo fosse superior, o local seria considerado uma área de alerta.

Caso a Cetesb constatasse concentração igual ou superior a 200 miligramas de chumbo por quilo de terra, a avaliação seria de intervenção imediata. Esse índice foi verificado num raio de 250 quilômetros do setor metalúrgico da empresa, que será submetido a um plano de remediação elaborado pela própria Ajax, com a concordância da Cetesb.

“Priorizamos o bairro por causa da contaminação das crianças”, explica o gerente da agência local da Cetesb, Rogério Chini. Cerca de 300 crianças que moram no bairro recebem acompanhamento da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) porque apresentaram índices elevados de metal no sangue (mais de dez microgramas de chumbo por decilitro de sangue).

A maioria delas já apresentou redução na concentração de chumbo no organismo, informa a diretora do Departamento de Saúde Coletiva, órgão da SMS, Maria Helena Abreu. Até ontem, ela desconhecia o resultado dos laudos apresentados à imprensa pela Cetesb. No entanto, esperava resultado semelhante.

Também tinha expectativa positiva quanto às ações realizadas até agora a moradora do bairro Neide Rodrigues de Castro. Porém, ela ainda está longe de tranqüilizar-se com a situação.

“Enquanto eu não fizer o exame novamente, não me acalmo. Quando eu fiz pela primeira vez deu 15 microgramas de chumbo por decilitro de sangue. Disseram que era normal porque sou adulta, mas faz tempo que me sinto mal e ninguém descobre o que é. Tenho os sintomas que perguntaram para meu filho”, conta.

A criança, de 12 anos, estava com alta concentração e é acompanhada pela SMS, porém não apresenta problemas de saúde. A contaminação pode provocar o saturnismo, uma doença que causa alterações no sistema nervoso e digestivo, além de anemia. “Só quando eu tiver certeza que ninguém da minha família terá problemas por causa disso, ficarei tranqüila. Passo tão mal que perdi até o emprego. Se eles tivessem adotado medidas com mais rapidez teria sido melhor ainda”, comenta.

O presidente da Cetesb diz que também gostaria que as ações fossem mais ágeis, no entanto pondera que esse tipo de problema (contaminação) no País é recente e o processo de descontaminação, moroso.

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Entenda o caso

O setor de metalurgia da Ajax foi interditado pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) em janeiro de 2002. Análises feitas pelo órgão nas dependências da empresa constataram a presença de chumbo no ar, água e solo.

Após a interdição, órgãos de saúde de Bauru iniciaram a realização de exames para verificar a presença de chumbo no sangue de crianças e adultos que moravam até mil metros da fábrica.

O resultado mostrou que 314 crianças estavam com mais de dez microgramas de chumbo por decilitro de sangue, o que é considerado uma alteração.

Após exames de alimentos produzidos nas proximidades da Ajax, órgãos de saúde recomendaram à população o sacrifício de aves.

Como parte das ações de descontaminação, a prefeitura e a Ajax rasparam a terra de ruas e quintais próximos ao setor metalúrgico, aspiraram o pó de 164 casas e promoveram a limpeza e a vedação de 82 caixas d’água. Em junho do ano passado, um inquérito civil instaurado pelo 4º Distrito Policial concluiu que não houve dolo (intenção) de poluir o meio ambiente por parte da Ajax.

No entanto, corre contra a empresa uma ação cível pública provocada pelo Instituto Ambiental Vidágua, que pede a indenização de todas as famílias que moram próximas ao setor de metalurgia e tenham sido prejudicadas pela emissão de chumbo.

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