Tribuna do Leitor

O velho do rio


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A imprensa bauruense ficou estupefata ao descobrir a existência de um jacaré sobrevivendo nas águas podres do rio Bauru. Fotografaram e publicaram diversas reportagens sobre o assunto.

Fui ao local para constatar o milagre da sobrevivência animal, como se não existissem seres humanos em piores condições de vida. A tarde estava acinzentada e comecei a ficar decepcionado pela ausência - em vida - da matéria-prima de sapato de madame. Distraí-me e, quando focalizei a margem, lá estava o réptil mendigo. Aproximei-me. Ele virou-se. Floria em seu semblante agradável a luz sutil de algo inexplicável. Posso até arriscar em dizer que estava presenciando o sorriso do jacaré, que lentamente retornou ao leito de dor do Velho do Rio.

Já me punha em retirada, quando ouvi um farfalhar de folhas. Voltei-me. As águas tristes encrespavam-se, confluindo-se em um cone ascendente. Era ele: o Velho do Rio. Cabelos longos, crespos e mais embaraçados que cobriam os ombros mais cansados em relação à visita anterior. A barba misturava-se com os fios do surrado saco de estopa, sua roupagem. Expressou-se o Velho:

- Há quanto tempo não via o amigo! Respondi:- Nunca poderia imaginar que o famoso jacaré pudesse ser também o amigo! Se minha conclusão estiver correta, gostaria de saber a razão?

- Acertou. Meu objetivo era chamar a atenção das autoridades, para - talvez - inspirar os poderes constituídos, visando sanear meu leito de dor a transportar as sujidades da comunidade e de vândalos. Mais uma vez não fui feliz.

Senti a rude tristeza na fala do velho já tão violentado. Procurei confortá-lo:

- Meu velho, se Cristo não tivesse esperança no homem, não teria dado a vida para salvá-lo. Disse ele:- É. O homem vive o apogeu da ganância, tendo como causa o materialismo herdado das garras felinas do capitalismo selvagem. O que está alentando é a geração de jovens promotores, homens de coragem, que usam da força guerreira de Marte, visando proteger a sociedade contra o mal que domina o coração etérico de homens dos poderes constituídos. Meu límpido leito, transformado em esgoto a céu aberto, é um atentado à saúde pública. O ex-prefeito do viaduto que apodrece, pelo menos limpou a calha de meu leito por duas vezes. Há quase oito anos que isso não acontece. Existem bancos de areia formados e o capim invadiu a calha do meu corpo. Os detritos humanos enroscam no capinzal e o mau cheiro atinge quarteirões, pondo em risco a saúde pública.

Lágrimas límpidas perdiam-se nas longas mechas surradas da barba do velho. Procurando consolá-lo, disse-lhe:

- A Igreja escolheu como tema da fraternidade deste ano a água. O poder eclesiástico, somado ao poder judiciário, poderão tornar o sonho do amigo em realidade; concedendo ao povo seus direitos constitucionais à saúde.

O Velho do Rio esboçou um sorriso fúnebre e deu-me um adeus com a mão enrugada e cheia de chagas adquiridas no seio da Cidade (?) Sem (?) Limites.

Joaquim Simões - RG 5.311.570

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