Tribuna do Leitor

"As mães"


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Júlia Lopes de Almeida, nos idos de mil oitocentos e “lá vai pedrada”, com os poemas, contos e poesias que fazia publicar nos jornais da época enriqueceu a literatura brasileira. Numa época em que as mães ainda não haviam despertado o interesse argentário e mercantilista e tampouco ficaram confinadas ao segundo domingo de maio, contou uma estória que bem retrata a profundeza e sacrifício do amor materno; e me atrevo reproduzir tão fielmente quanto me permita a memória, pois a considero autêntica “ode às mães”. Trata-se de “A Caolha”, que morava num casebre, no fim de uma ruazinha sem nome, dedicada ao filhinho traquinas (Toninho) de 3 anos, e da roupa que lavava para fora e o sustento dos dois. Sofrendo um acidente que lhe deformou a face esquerda, tivera o olho esquerdo extirpado, deixando-a com uma expressão repugnante para os vizinhos que por isso a chamavam - sem saber-lhe o nome (d. Izabel), e conheciam como “a caolha da viela”! Por vezes pessoas maldosas e os garotos malcriados a apupavam quando passava com a trouxa de roupas à cabeça, dizendo: “Lá vai a caolha!”, ou, “lá vem a caolha!”. Com o Toninho, não era diferente! De todos era conhecido como “o filho da caolha”: “Lá vem o filho da caolha”, diziam. Sem condições de compreender o porquê daquilo, enquanto o tempo passava, Toninho crescia. Por vezes indagou da mãe as razões da deformação, quando ela lhe respondia: “Deixa pra lá; não vale a pena lembrar!” E Toninho se perguntava: “Que pecado tão grave deve ser esse, do qual ela nada fala?” Na escola, sofria com os apupos dos coleguinhas maldosos apesar do carinho devotado pela professorinha, que de nada adiantava. Com o tempo, passou a incomodar-se com o tratamento dispensado e o apelido. Começou a trabalhar numa oficina pois precisava ajudar d. Izabel nas despesas, mas o tratamento dos colegas obrigaram-no a mudar de emprego. Passando para outro, no armazém do “seo” Manoel, inventou para a mãe que precisaria dormir no emprego para melhor desenvolver-se, quando Izabel - “a caolha”, entendeu o propósito do filho que passando a sentir-se envergonhado e com raiva da mãe, procurava livrar-se daquela “pecha” que carregava desde pequeno. No novo emprego, conhecera uma bela rapariga cujos olhos brilhantes fizeram seu coração pulsar mais forte até que, sabendo ela que o pretendente era “o filho da caolha”, afastou-se para tristeza de Toninho. No fundo Izabel entendia porque Toninho que antes lhe beijava a face, evitando no entanto a esquerda, nem mais a face direita beijava. Transtornado com aquela situação, contatou sua madrinha a quem por vezes confiava certos segredos, quando ela, puxando-o pela mão, levou até a presença da “caolha” exigindo que ela, apesar da sua desesperada contrariedade, contasse ao filho, toda a verdade. E, diante da recusa sistemática de Izabel, a madrinha contou a Toninho que: “... Quando você era ainda muito pequeno e sua mãe distraída com você ao colo lhe dava uma sopinha, não percebeu quando apanhando um garfo sobre a mesa, num gesto violento e impensado, você o cravou no olho esquerdo dela. Fui eu quem, da casa ao lado da sua, socorri sua mãe que gritava desesperada caída no chão enquanto você chorava sem entender o que se passava, e consegui arrancar o garfo que tanta dor lhe causava, sem conseguir devolver-lhe o olho que ficara espetado no garfo. O olho cicatrizou, sua face se deformou mas o seu coração ainda está ferido. Foi você, Toninho, quem lhe deu o apelido de “A Caolha”.

Preferi esta estória para tentar homenagear todas as mães deste mundo, cujos filhos, consciente ou inconscientemente as tenham “cegado” e que foram esquecidas e, mesmo sem poderem ver seus filhos, por eles ainda choram! A minha já foi morar com Deus, e tenho certeza que nossas lágrimas provocadas pela saudade se misturam e se confundem. A todas a mães, por seu Sagrado Dia dedico um beijo carinhoso em seus corações! (Jairo Goffi - OAB/SP 32863)

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