Cultura

Sobre mundos: Um Nosferatu muito perto de voc

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um dos lugares mais visitados da Romênia é o antigo castelo de “Bran”, que fica na belíssima região da Transilvânia. Neste castelo viveu o conde Drácula, que governou aquela região com severo autoritarismo e com muito derramamento de sangue.

O escritor Bram Stoker aproveitou esta figura histórica e criou um dos personagens mais conhecidos do mundo das trevas: o vampiro Drácula. Um pouco mais tarde, o expressionismo alemão tornou o personagem mundialmente conhecido com o filme “Nosferatu” (1922).

Durante a história da sétima arte, o personagem Drácula continuou passando por transformações. Nas primeiras produções o vampiro é apresentado de forma muito direta e simples, como no clássico de Tod Browning “Drácula” (1931).

O filme apresenta o conde da Transilvânia marcado por uma maldição milenar: para continuar “vivo” Drácula necessita alimentar-se de sangue humano, aterrorizando, assim, toda a população de Londres. Aqui, a figura do vampiro permanece distante, sem revelar nenhuma característica de sua vida pessoal ou emocional.

Com o passar do tempo, o vampiro foi tornando-se uma figura bastante complexa, desenvolvendo-se em torno do personagem uma perfeita “psicanálise vampiriana”. O vampiro deixa de ser simplesmente uma ameaça para tornar-se uma figura que sofre, que possui emoções, problemas, traumas e crises existenciais.

É o caso, por exemplo, do excelente filme “Drácula de Bram Stoker” (1992) de Francis Ford Coppola, ou da interessante produção de Neil Jordan “Entrevista Com o Vampiro” (1994), no qual em pleno século 20 um vampiro concede uma entrevista a um jornalista, contando como foi transformado em uma criatura das trevas pelo vampiro Lestat, na Nova Orleans do século 18.

Na verdade, a figura de Drácula, desde o romance de Stoker até as últimas produções do cinema, é uma metáfora que nos permite refletir sobre uma tendência que podemos observar em nosso cotidiano: “Vampirismo”. A primeira característica do vampiro é o medo da morte. O ser humano torna-se um vampiro quando sua aparência e o sonho da “eterna juventude” transformam-se no centro de sua vida. Sendo o vampiro uma figura egocêntrica e narcisista, ele necessita chamar a atenção e não tolera concorrência. Por isso, ele possui pavor da renúncia, da dor e de tudo que possa significar a morte. A cruz, símbolo de sofrimento, causa-lhe repulsa e pânico. Para continuar vivo e fugir de qualquer sofrimento, o vampiro alimenta-se da morte dos outros. É necessário que os outros desapareçam, ou pelo menos não estejam no centro das atenções para que ele seja a figura central.

Manter as aparências é, para o vampiro, mais importante do que o seu próprio ser pois seu ser constitui-se em um corpo sem vida e em uma mente sem criatividade. Porém, ao recusar-se a morrer, o vampiro vai contra uma lei natural: “quem procurar ganhar sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai conservá-la” (Lc 17, 33).

Assim, a vida de um vampiro é sempre pobre e superficial. Ele é incapaz de amar, de ter uma amizade profunda, enfim, de realmente relacionar-se com o outro. O vampiro mantém-se vivo, mas é condenado a ser um “morto-vivo”. Ele possui medo de arriscar-se e de experimentar o novo. Sua vida está mergulhada em uma monotonia, pois mudança significa morte da estrutura atual da vida. “O caminho do risco é o sucesso; o do acaso é a sorte; o da dor é o amigo; o caminho da vida é a morte” (Raul Seixas).

O vampiro é aquele que não possui vida própria, mas necessita do sangue (símbolo da vida) dos outros para sobreviver. Ao mesmo tempo que ele procura manter sua aparência e evitar qualquer espécie de morte, o vampiro possui, na verdade, pouca auto-estima. O ser humano torna-se um vampiro a partir do momento em que deixa de acreditar em suas próprias forças, deixa de amar-se e de auto-valorizar-se.

Assim, ele possui a necessidade de apropriar-se das qualidades, das idéias e da vida do outro para poder continuar vivo. Ele é incapaz de viver de seu próprio sangue, de seu próprio trabalho, de suas próprias idéias. Sua fonte de vida é sempre o trabalho alheio. Por não acreditar em si próprio, o vampiro é aquele que não suporta a claridade e nem consegue ver-se no espelho.

Exatamente neste ponto encontra-se o melhor remédio contra o “Vampirismo”. O vampiro torna-se humano quando é capaz de olhar-se no espelho, quando deixa de esconder-se nas trevas do medo e passa a ter coragem de encontrar-se consigo mesmo, confrontando-se com suas tendências negativas e descobrindo suas potencialidades. Só assim o ex-vampiro é capaz de viver durante o dia e revelar sua verdadeira imagem sem envergonhar-se dela. “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas existe” (Oscar Wilde).

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