Saúde

Encontro cobra mais atenção audiológica

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Facilitar e aumentar o acesso da população aos centros públicos de diagnóstico da deficiência auditiva - esta foi uma das principais necessidades apontadas por especialistas durante o 19.º Encontro Internacional de Audiologia (EIA), realizado em Bauru no último fim de semana. A questão foi abordada no fórum “Surdez e políticas públicas”.

De acordo com a médica Maria Cecília Bevilacqua, presidente de honra do evento e coordenadora deste fórum, apesar de oferecer gratuitamente tratamentos de alta complexidade para as deficiências auditivas, a rede pública de saúde apresenta uma lacuna importante no atendimento audiológico voltado à atenção básica e aos procedimentos de média complexidade.

“É comum que pessoas com alterações auditivas leves e moderadas não se sintam confortáveis em procurar tratamento nesses centros especializados. Elas acham que seus problemas não são tão sérios e que esses centros só tratam pessoas que apresentam distúrbios muito graves”, comenta.

Segundo ela, o fórum concluiu que a saúde pública deveria ampliar o atendimento auditivo para os postos de saúde - primeiro recurso procurado pela população. Só essa medida já traria um benefício imediato: o diagnóstico precoce. Estudos mostram que quanto mais cedo a deficiência auditiva é descoberta e tratada, menores são os prejuízos à vida do paciente.

Outro argumento dos especialistas é a importância da continuidade do tratamento. “O paciente vai ao centro especializado, faz o diagnóstico, recebe o aparelho gratuitamente e volta para casa, muitas vezes em outra cidade. Ele não tem a reabilitação, que é fundamental e poderia ser oferecida pela atenção básica”, salienta Bevilacqua.

A reabilitação consiste em ensinar o paciente a ouvir e a falar com o aparelho. O equipamento amplifica todos os sons e leva-se algum tempo até que a pessoa consiga separar sons úteis dos ruídos, consiga identificar e reconhecer os diferentes sons.

“Grande parte dos pacientes deixa de usar o aparelho porque não conseguiu desenvolver essa percepção do que é um som significativo. Essa capacidade não é dada pelo aparelho, isso depende da capacidade cognitiva, subjetiva do ser humano e isso tem que ser vivenciado e desenvolvido em situações orientadas por um profissional”, explica a médica.

Outro ponto discutido durante o fórum foi a necessidade de se estabelecer critérios para abertura e manutenção dos centros especializados. Participantes do fórum “Surdez e políticas públicas” defendem a adoção da base populacional como referência, espalhando centros por diversas regiões.

“Hoje, os centros audiológicos de Bauru recebem pacientes das mais diversas regiões, inclusive de outros Estados e o custo disso é alto. O cidadão tem direito ao atendimento fora domicílio quando o município não oferece o serviço e quem custeia isso é a prefeitura ou o Estado”, salienta.

O fórum também concluiu que, paralelamente à expansão dos serviços, é preciso que se faça um trabalho de conscientização. “Existe muito preconceito em relação à deficiência. O deficiente auditivo carrega o estigma de fracasso e incapacidade, mas muitas vezes são pessoas mais criativas, mais capazes ou tanto quanto todo mundo”, defende.

Bevilacqua estima que o número de pessoas que deixa de buscar tratamento por causa do preconceito seja muito alto. “É preciso mostrar para as pessoas que esse conceito de anormalidade não existe. A vida é vencer desafios diariamente e, para isso, temos que enfrentá-los”, encerra.

Parceria

Outro tópico defendido pelos especialistas durante o EIA foi a possibilidade do Brasil fazer um convênio com a África e uma organização não-governamental (ONG) canadense para a aquisição de tecnologia e equipamentos mais baratos.

Bevilacqua comenta que, no intuito de oferecer trabalho para a população africana, melhorar a qualidade de vida local e contribuir pela redução dos casos de aids naquele continente, a ONG canadense Godisa montou um centro para a fabricação de equipamentos no país de Botswana. Entre os equipamentos produzidos, os africanos desenvolveram uma bateria recarregável que utiliza a energia solar.

“Hoje, no Brasil, os aparelhos utilizam baterias descartáveis, que duram quatro a cinco dias, a um custo mensal que varia entre R$ 30,00 e R$ 50,00. Essa ONG já abriu mão da patente e essas baterias podem ser produzidas no Brasil por qualquer grupo que se interesse em fazer um convênio”, alerta.

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