Publicar um primeiro livro não é fácil. Pelo menos foi assim que achei ao terminar o meu. Até para se dedicar, num simples cartão de visita, alguma pequena mensagem, muitos encontram dificuldade. Escrever um livro então equivale a escrever milhares de cartões. Ainda assim, eu tinha a pretensão, uma fantasia, por assim dizer, guardada a sete chaves, de algum dia escrever um livro.
O Jornal da Cidade, na época, concedeu-me generosos espaços em suas colunas, algumas vezes em folhas inteiras, com fotos coloridas. Uma se destacou pelo tamanho e pelo tema focado, medindo 28x19 centímetros, considerada uma das maiores até então publicada. Entusiasmado ia me desenvolvendo na escrita, direcionada mais sobre o lendário rio Araguaia, que divide meu estado de Goiás com o de Mato Grosso.
Nesse ínterim, a direção do Jornal da Cidade mudou. Cabendo ao dr. Renato Delicato Zaiden conduzi-lo e o faz da melhor maneira possível. Jovem, dinâmico, arregaçou as mangas, cercou-se de pessoas gabaritadas em jornalismo e deu seqüência a uma nova administração.
Pesquisou a preferência dos leitores e viu que o interesse dos praticantes do ecoturismo e da pesca cresceu, tornando-se num filão digno de ser explorado comercialmente. Formou de imediato uma equipe experiente no assunto, criando o Caderno Especial de Turismo, o único existente no interior.
Deu certo.
- E o livro, perguntou minha mulher, não vai escrevê-lo?
Como bagagem, baseava-me apenas no meu hábito de ler e dos inúmeros artigos escritos ao longo dos anos, sobre a natureza, rios, acampamentos selvagens, aventuras, rio Araguaia e ultimamente me diversificando em assuntos diversos. Publicava-os, na época, aleatoriamente, nas folhas do Jornal da Cidade, que ainda não contava com o Caderno Especial de Turismo.
Os leitores apreciavam o ecoturismo e tudo mais referente a essa nova mania de curtir a natureza e a pesca é um dos seus segmentos.
Com freqüência, leitores incentivam-me a condensar em fascículos esses episódios. Ante seus comentários positivos, enchi-me de presunção e me pus a pensar em escrever um livro, pequeno, simples, apenas para satisfazer meu ego.
Seria eu capaz de fazê-lo? O tema teria aceitação? E os escritores de verdades, me julgariam com tolerância, eu que me declarava simples escrevinhador?
Pedi a Deus que me orientasse. Comecei a juntar as palavras e dei seqüência ao meu raciocínio. Como a maioria dessas narrações se reportava a um passado distante e lembrar-se delas são características da terceira idade, levei vantagem. Recordava-me dos fatos anteriores, mas quando recentes aqueles “brancos” que nos fazem esquecidos surgiam, atrasando meu desempenho.
Quando parava para revisar, na maioria das vezes mudava todo o texto. Mesmo assim eu progredia lentamente.
- Só isso que escrevi nessas sete horas digitando? Assim nem em dez anos termino este livro, me indagava.
Numa dessa, depois de escrito e revisado, perdi sessenta folhas por simples barbeiragem. Pensei em desistir. Do que havia digitado esqueci-me de quase tudo, levando mais de dois meses para refazê-lo, agora totalmente modificado.
Meio desanimado, procurei a professora dra. Isolina Bresolin Vianna para me orientar. Ela, especialista no assunto, pediu-me para lhe deixar o rascunho. Dois dias depois o telefone toca:
- É a professora Isolina, quero falar com o senhor.
- Felisdeu, parabéns. Continue nessa linha que tudo vai dar certo. O assunto é bom e o senhor escreve bem.
Esses incentivos deixaram-me mais dispostos e quando eu terminava uns cinco capítulos, dirigia-me a ela, que não escondia sua aprovação aos meus escritos. Eu recebia esses encômios com certas reservas, achando que eles não passavam de simples cortesias por parte da dra. Isolina. Cheguei a deixar de lado essa presunção de escrever o tal de livro.
Uns dois meses depois o telefone toca:
- Felisdeu, aqui é a professora Isolina. E o livro? O senhor não me tem procurado, já o terminou?
- Que nada, respondi. Abandonei a idéia e vou me dedicar àquilo que mais sei fazer e gosto: tratar dos meus clientes. Literatura é para vocês, os magnatas no assunto.
- Nada disso. Quero conversar com o senhor. Eu o espero.
Fui.
Depois de um longo tempo ouvindo seus arrazoados, saí com a expressão mais aliviada e disposto a terminar o dito cujo. Passaram-se mais quatro meses, quando levei o “boneco” para uma revisão final e ela o aprovou integralmente.
Conversando com outros seus colegas da Academia de Letras, foram unânimes:
- Se a dra. Isolina falou, confie em suas palavras. Ela é uma das melhores.
Às vésperas do lançamento ela me telefona:
- Aqui é a professora Isolina. Amanhã é o grande dia. O senhor vai se sair bem, tenha certeza.
- É professora, a senhora me incentivou nos momentos de minhas indecisões. Sou-lhe grato pela ajuda.
- Vai ser um sucesso, prognosticou.
E foi.
O livro, “Canoeiros do Araguaia”, finalizou com 239 páginas, 52 fotos, sendo 18 coloridas. No lançamento, os entendidos avaliaram o comparecimento em perto de trezentas pessoas, das mais significativas na sociedade e na cultura bauruenses, todos interessados em ler o meu livro.
Felisdeu Leão