“Do fundo do rio, ouviu-se uma poesia inusitada, declamada com objetividade, mais parecendo uma notícia relatada pela bela arraia que assim versejava:
‘Seu Curimbatá, lambari mandou dizê que a piava tá doente, com saudade de você...
E com ciúme, a piranha quis mordê
E o pacu entrou na briga só prá coitada defendê...
Já, o piau-verdadeiro ameaçou que vai matá qualquer um, de couro ou de escama que a piava molestá...
E se for preciso, seu pintado eu vou chamá...
Pois junto com seu Jaú, vai a piranha arrebentá...
Que briga boa, não posso deixar de vê...
foi o que disse a piapara, no fundo do rio Tietê...
Levantando lodo e barro, o barbado quis sabê...
Se a piranha reagisse, o que ia acontecê...
No meio da discussão, a mandiúva chegô...
E sem que se percebesse, a jurupoca piô
Foi aquela piadeira, quando um anzol lhe fisgô...
Quem mandô piá tão alto, até o pescador escutô...
Coitada da jurupoca, o lamento foi um só...
O mandi ficou tristinho, dela morrendo de dó...
Com grande sabedoria, bem mais do que minha avó...
Disse o dourado clemente, chorando como ele só...
Vamos parar com essas brigas, pois perdemos a companheira...
A jurupoca infeliz, de tanto piar, coitada, foi parar na frigideira...
Fazendo as pazes todo mundo, sem mais nenhuma besteira...
Fugindo do anzol e da rede, vamos todos felizes, nadar lá na corredeira...
Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de história.