Pode não parecer, mas nem sempre é possível ver tudo o que ocorre à sua frente, nos lados ou atrás quando se está ao volante. Isso porque os automóveis possuem zonas que dificultam e, às vezes, até impedem a necessária e ampla visão do tráfego dos condutores. Estes “inimigos” aos olhos e, principalmente, à segurança ao rodar são os chamados pontos cegos.
“Eles são um dos maiores desafios a serem superados durante o projeto e o desenvolvimento de um veículo”, considera Osmar Vicente Rodrigues, professor de Design Industrial da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, que logo avisa: “Independentemente de seu desenho, modelo, tamanho e características estruturais, todo carro tem pontos cegos.”
Por essas razões, Osmar explica que as tendências atuais de design automotivo procuram integrar o máximo possível os espelhos retrovisores às carrocerias e diminuir a largura das colunas, os locais mais críticos e propícios ao desenvolvimento dos efeitos dos pontos cegos, que podem ser surpreendentes.
“Dependendo da distância, a coluna de um automóvel esconde a aproximação de veículos de qualquer porte, como motos, carros ou até mesmo caminhões e ônibus”, alerta o docente. O mesmo pode acontecer com os espelhos retrovisores, pois possuem alcance e ângulos de visão limitados.
E é para tentar minimizar tais problemas, acrescenta Osmar, que as montadoras investem cada vez mais no aperfeiçoamento dos projetos ergonômicos, responsáveis por tornar o “relacionamento” entre máquina e homem no habitáculo agradável, funcional e seguro. “Em um automóvel bem resolvido ergonomicamente a chance dos pontos cegos atrapalharem a condução é menor”, destaca o professor.
Por automóvel bem resolvido ergonomicamente entenda-se aquele capaz de ser confortável e de boa dirigibilidade para pessoas dos mais variados portes físicos. “Todo projeto desta natureza deve atender 90% das compleições físicas e leva em conta, por exemplo, a altura média do brasileiro, que é de 1,72 metro”, esclarece Osmar.
E é em função da análise desses fatores que a localização de componentes automotivos, como os comandos de painel, os espelhos retrovisores, a área envidraçada e a inclinação do pára-brisa, é definida. Mas e as pessoas que destoam dos padrões baseados pelos fabricantes? “As opções de regulagens, como as dos bancos, encostos e direção, foram inventadas para evitar problemas do gênero”, frisa.
Já o designer Roberto Carlos Barduco, há 17 anos na função em uma fábrica de carrocerias de ônibus, destaca que já há tecnologia desenvolvida, como sensores de aproximação e câmeras de vídeo, para superar os pontos cegos. “Mas como tais equipamentos são inviáveis financeiramente para equipar carros populares, a tendência é que a solução para o problema continue sendo o aumento dos retrovisores e a redução das colunas”, enfatiza.
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Condutor pode amenizar problema
É possível ao próprio motorista, com pequenos cuidados antes e durante o ato de dirigir, fugir das ações nocivas dos pontos cegos. Uma delas é o ajuste dos retrovisores, questão controversa que já foi motivo de reportagem do AutoMercado&Cia em setembro do ano passado.
Nela, um engenheiro mecânico ressaltava que os condutores não deveriam preocupar-se em medir ângulos para ajustá-los, e sim procurar um posicionamento para se sentir à vontade no automóvel para garantir total conforto e segurança.
Barduco segue a mesma linha, mas pondera nunca ter lido ou visto nada que afirmasse com exatidão as posições corretas dos retrovisores. Entretanto, ele dá uma dica. “Teoricamente, estes equipamentos devem ser ajustados a partir do término do limite de visão de um e do início do limite de visão do outro”, ensina.
Além das regulagens dos espelhos, Barduco sustenta que a má postura ao guiar também contribui para o motorista sofrer os efeitos dos pontos cegos. “Permanecer demasiadamente próximo ao volante diminui o ângulo de visão, pois nos projetos veiculares o corpo dos condutores não são pensados para ocupar tais lugares”, exemplifica.
Por isso, o designer salienta que a posição ideal para dirigir é aquela em que a pessoa sinta-se confortável e capaz de realizar os movimentos necessários pelo maior período possível de tempo. “Daí a importância de um projeto automotivo propiciar variedades de regulagens”, afirma Barduco.
Já o professor Osmar lembra a necessidade de maior paciência ao efetuar conversões ou aproximar-se de cruzamentos. “São locais onde o motorista precisa ter mais calma e atenção para esperar que eventuais veículos que se encontrem nos pontos cegos de colunas e retrovisores possam ser vistos”, orienta.
Entretanto, ignorando ou negligenciando os riscos, são exatamente nestes lugares que os motoristas têm mais pressa. A mania de não perder tempo faz com que muitos adotem a “meia-parada”, ou seja, hábito de reduzir marchas, olhar rapidamente para os lados e seguir em frente, desrespeitando as sinalizações de parada obrigatória.
“Agindo assim, as probabilidades de acidentes aumentam, pois, além de um veículo poder estar escondido nos pontos cegos, nestes locais os tempos de reações exigidos para uma eventual situação de emergência são frações de segundos”, alerta o docente.