O rostinho vermelho e quente da criança deixa pais e mães completamente transtornados. Mas a febre nada mais é do que um recurso usado pelo organismo para se defender de agentes invasores. O importante, segundo os médicos, é saber interpretar esse alarme. Na maioria das vezes, não há nenhum motivo para pânico.
O aumento da temperatura é um mecanismo natural de defesa do organismo. O super aquecimento interrompe o processo reprodutivo dos germes (vírus, bactérias, fungos). Ao mesmo tempo, ativa o sistema imunológico, desencadeando a produção de anticorpos contra eles.
De acordo com o médico infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa, apesar de todo o desconforto e da preocupação inevitável dos pais, os processos inflamatórios são muito importantes para o desenvolvimento do ser humano.
Do mesmo modo como o bebê precisa aprender a engatinhar, balbuciar, andar e falar, o sistema imunológico precisa aprender a identificar “intrusos” e a lutar contra eles. Precisa aprender a coordenar diferentes tipos de ações de defesa diante das mais diversas situações ameaçadoras.
“Esse amadurecimento depende do contato do organismo com agentes infecciosos. Crianças que inflamam pouco na infância tendem a ser adultos de saúde mais frágil. Em contrapartida, estudos indicam que crianças que vivenciam mais episódios de febre são menos propensas a apresentar alergias. E este é um ponto de vista cada vez mais aceito entre os especialistas”, afirma.
Para o médico homeopata Marcos Dias de Moraes, a febre é sinal de vitalidade. “Criança sadia é aquela que apresenta temperatura mais elevada quando está com febre. Prova disso é que, com o envelhecimento, a pessoa vai ficando menos sujeita a ter febre. O idoso raramente tem e, se ela ocorre, é baixa”, observa.
O problema, na opinião de Costa, é que as pessoas estão desaprendendo a lidar com a febre. Ele destaca que os avanços científicos ocorridos nos últimos 100 anos levaram o ser humano a adoecer cada vez menos. Só que, com isso, as pessoas têm perdido progressivamente sua competência para enfrentar as adversidades.
“Em 1905, quando a criança tinha febre, não havia antibiótico, raio-x, médico a poucas quadras. Os pais tinham que lidar sozinhos com a febre e eles tinham seus mecanismos para fazer isso. Eles davam banhos, faziam compressas e isso funcionava. Com o passar dos anos, as pessoas foram abandonando esses conhecimentos. Sem saber como agir, ficam apavoradas”, comenta.
Costa salienta, porém, que a febre é benigna na imensa maioria dos casos, mesmo quando atinge temperaturas mais elevadas. “As pessoas acham que febre alta é sinônimo de doença grave, mas não é assim. Uma pessoa pode fazer febre alta por causa de uma gripe e outra pode fazer febre baixa por um tumor”, destaca.
O pediatra e alergologista Felinto dos Santos Neto comenta que os quadros mais freqüentes de febre são causados por viroses, especialmente gripes e resfriados. Nesse caso, o médico só controla os sintomas, porque o próprio organismo produz os anticorpos e cura a infecção.
Em segundo lugar aparecem as infecções bacterianas (pneumonias, meningites). “São quadros mais graves que se não forem tratados vão evoluir. Então, o tratamento de uma meningite viral é repouso e controle sintomático. Uma meningite bacteriana temos que usar um antibiótico”, explica.
Outra causa freqüente de febre, segundo Santos Neto, são as alergias. “O quadro alérgico começa sempre com um processo inflamatório. As bronquites, por exemplo, costumam apresentar febre”, comenta.
Os médicos salientam que a manifestação da febre é algo muito individual e depende da sensibilidade de cada organismo. Prova disso é que, numa mesma família, pessoas contaminadas por um mesmo agente apresentam reações e tempo de cura diferentes.