Articulistas

Colisão de bondades e maldades


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Nem todos os animais domésticos transitam nas ruas com semblantes simpáticos e suaves, denotando mansidão e, então, escondendo capacidade de alguma rebeldia, tipo avanços e ataques sorrateiros, desferíveis sem aviso prévio ou perceptível. Muitos outros, porém, tanto nas vias públicas quanto nas suas moradias, são totalmente diferentes, mansos e cordatos, aproximando-se de quantos lhes passam perto com uma mansidão que não deixa dúvida quanto à sua boa índole, a qual não os leva então a suscitar quaisquer reações dos circunstantes. Referimo-nos aos cães, tidos como “os melhores amigos do homem”, sejam mansos, sejam bravios.

Não tinha nenhum o Brasil quando foi descoberto às amplas margens do Atlântico. Nossos indígenas nem sabiam realmente que tais animais existiam em outros territórios do universo, até porque, face à distância, não ouviam os seus uivos e latidos. Sabe-se então que os primeiros a deixarem suas plagas aportaram aqui viajando em caravelas dos portugueses sem o conforto que teriam o direito de exigir. Eram da raça cão-fila, violentos e rústicos, mas, ao mesmo tempo dóceis, especializados na guarda de residências e vigilância de gado, assim como caça de animais ferozes, tipo onça pintada e tigre de igual pintura...

Considerado amigo do homem, o cão-fila dá, no entanto, a esse seu idolatrado homem, quando suficientemente tratado, ônus bastante elevado, eis que cada fila adulto come perto de três quilos e meio por dia, tendo alimentação luxuosa, de gente rica, baseada em farinha de carne e de peixe, carne moída, cálcio, ferro, fósforo, vitaminas em geral, fubá e aveia. “Tais cães comem de tudo, só não chupam cana” - revela o dono de um deles, acrescentando: “Quando uma cadela dá cria e não tem leite tenho de acordar de madrugada para esquentar mamadeira”. Poder-se-ia contar a mesma história das demais raças, sem excluir os chamados vira-latas? Nem sempre porquanto é inegável a existência de outros que representam sérios perigos, tanto para crianças quanto para adultos, contra os quais investem mesmo, com ou sem motivo, molestados ou não, tendo, às vezes, a ousadia de arrebentar grades e muros para dar vazão aos seus bélicos instintos.

Testemunha-os constantemente a mídia, noticiando a internação de pessoas, principalmente menores, vitimados pelos tais, o que induz a convicção de que é empenhadamente aconselhável às pessoas confiar desconfiando de todos esses peludos, porque se há humanos que atentam contra a vida de humanos como acreditar-se que não haja animais com igual perversidade na cabeça? Vêm daí a preocupação de muitas comunidades visando a captura daqueles que, perambulando livremente nas ruas, possam penalizar as correntes com seus afiados dentes, ainda que se ponham contra isso aqueles que protestam exclamando: “Por que ao invés de pegar cachorros e gatos vocês não pegam crianças pobres e famintas para cuidar?”

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

Comercial: “Precisa-se de gente que faça história e não se deixe arrastar pelos fatos; de mais corações desarmados num mundo cheio de guerra e de espíritos fortes num século de mediocridades.” (R. Schneider)

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