Polícia

Homicídios: 71% das vítimas têm ficha

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Dados da Delegacia Seccional de Bauru referentes aos quatro primeiros meses deste ano apontam que 71,4% das vítimas de homicídios na cidade possuíam antecedentes criminais. Das 22 vítimas relacionadas pela Polícia Civil, cinco eram autores comprovados de homicídio. Por outro lado, apenas seis pessoas não tinham qualquer envolvimento ou passagem registrada pela polícia.

Dentre as vítimas, os crimes mais comuns praticados por elas são o tráfico de entorpecente (artigo 12 do Código Penal), furto (artigo 155) e maus-tratos (artigo 136). Por outro lado, dos 12 autores de homicídios identificados, quatro já haviam sido condenados por crimes diversos, com inquéritos policiais concluídos.

Para o delegado seccional, Antônio Ângelo Ciocca, o fato das vítimas terem passagem criminal e até serem autores de outros homicídios indica que a violência é mais concentrada no próprio meio do crime. “Das 22 vítimas, 16 tinham antecedentes criminais. Na verdade, o homicídio está quase sempre relacionado ao tráfico de drogas, ao álcool e ao porte de armas”, diz.

Apesar disso, o delegado destaca que os desentendimentos por motivos fúteis são o principal ponto comum nos crimes com mortes violentas ocorridos neste ano em Bauru.

“Nós não temos fábrica de armas na cidade e tentamos realizar um controle rígido das armas legalizadas, mas temos de saber como as armas ilegais continuam chegando. Uma pessoa armada, quando se envolve em um atrito ou se desentende com um desconhecido - ou mesmo alguém do mesmo meio -, tem muita facilidade em sacar a arma e atirar”, analisa.

O filósofo e professor de ética Clodoaldo Meneguello, coordenador do Núcleo pela Tolerância da Universidade Estadual Paulista (Unesp), concorda com Ciocca. Ele ressalta que os dados sobre as vítimas de homicídios mostram com clareza a banalização da violência na sociedade.

No relatório da Polícia Civil, a maioria dos motivos apurados nos homicídios tem relação com pequenos desentendimentos, cobrança de dívidas de pequenos valores, brigas em bares ou em situações em que as pessoas estavam consumindo bebida alcoólica.

“O dado que se sobressai é a banalização, são mortes por desentendimentos. Foram apenas três ou quatro mortes ligadas ao crime organizado, ao tráfico, que tem uma violência premeditada e que jogaria essa questão em outro patamar. Mas neste caso, temos mesmo autores que cometeram homicídio por simples disputas”, observa.

Percepção confusa

Na opinião de Meneguello, a sociedade passa atualmente por uma mudança na percepção dos indivíduos. Segundo o professor, o “outro” passou a ser visto de maneira fútil e a vida humana, encarada como um valor descartável.

“A pessoa que passa por uma cadeia sai marcada e discriminada. Na sociedade, ela tem esse estigma e isso atrai situações de violência. Ela já é vista como alguém prestes a cometer um novo crime, mas a questão não é essa. Não somos divididos em pessoas boas e más - sendo que as más teriam de ser punidas somente por serem más”, argumenta.

Meneguello ressalta ainda que a maioria das vítimas e dos autores dos crimes violentos neste ano tinha profissão e ocupação definidas.

“Os crimes não foram premeditados, pelo que podemos perceber. Estes existem, mas são minoria. Não seriam pessoas vinculadas a circunstâncias de violência e sofrimento social, mas que se envolvem com a violência por conviverem com uma realidade de problemas. É realmente a banalização da violência que envolve estas pessoas em situações de crimes”, conclui.

25 assassinatos

Até a data de ontem, o número de pessoas mortas de forma violenta em Bauru já alcançava 25. Em todo o ano passado, ocorreram 42 assassinatos. Nas estatísticas, são incluídos como homicídio apenas os crimes em que a vítima morre no local ou pouco tempo depois, e quando não havia outra intenção senão a de matar.

Ao todo, de janeiro a abril a Polícia Civil teve 19 registros de homicídios em boletins de ocorrência (BO). Incluindo o assassinato triplo ocorrido no Parque Viaduto e a morte de dois irmãos no Jardim Vitória, em fevereiro, os dados apontam 22 vítimas fatais até abril.

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