Do espartilho ao silicone, quanto custa ser bonita e seduzir? Muitas plásticas, quilos de creme, centenas de batons, aperto, sofrimento, horas de fome, meses de academia... Tudo isso não tem preço. Aliás, só as mulheres sabem o quanto custa equacionar esta questão, se é que dá para resolver a tal história do padrão de beleza que a cada hora dita a mulher de um jeito.
Desde a segunda metade do século 19 até os dias de hoje, a busca pelo belo seduz as mulheres, que se aprisionam num universo de sacrifício para estar na justa medida, muitas vezes injusta com a maioria delas.
A exposição multimídia “O Preço da Sedução - Do Espartilho ao Silicone”, que pode ser visitada gratuitamente, até o dia 30 de maio, no espaço Itaú Cultural, em São Paulo, mostra a transformação do ideal de beleza feminino através dos tempos e como isto se reflete na arte, na moda, na publicidade e no cinema. A mostra reúne cerca de 130 obras entre pinturas, esculturas e fotografias e exibe também trechos de filmes, anúncios publicitários e mais de 300 itens de uso pessoal: roupas, acessórios e objetos de toucador.
Moda ou opressão
O marco inicial da mostra é o espartilho da segunda metade do século 19, um instrumento de sedução e tortura. Ao afinar o torso feminino, o acessório acentuava a cintura e o peito, tornando a respiração quase impossível e causando deformações na estrutura óssea.
Nos anos 20, durante a segunda Revolução Industrial, a linha reta afinou a silhueta e as melindrosas usavam vestidos de cintura baixa, pois os corpos precisavam se soltar para praticar esportes e corresponder aos novos conceitos de agilidade e velocidade. Essa silhueta esbelta requeria um corpo quase andrógino. “As cintas e maiôs elásticos comprimem os quadris e surgem os ‘achatadores de seios’. Por toda parte, mulheres elegantes martirizavam suas curvas com bandagens.
Depois da Grande Depressão, o cinema surgiu com força total ditando a moda e as atitudes das mulheres em todo o mundo. Foi a época do surgimento dos mitos de Hollywood e o início da industrialização internacional da beleza.
Durante a Segunda Grande Guerra, um visual mais reto e econômico tornou-se o padrão. Foi nesse período que a mulher de fato incorporou atitudes e figurinos masculinos, surgem as calças compridas e os tailleurs, que repetem os ternos e os uniformes dos homens.
A partir dos anos 50, começou a ser exigida da mulher uma mistura da perfeita dona de casa com a mulher sedutora: cintas e sutiãs com enchimento, cinturas de vespa, saias rodadas e muitas anáguas. A mudança do eixo cultural de Paris para Nova York levou mulheres de todo o mundo a buscarem o american way of life.
Os anos 60 e 70 conduziram uma revolução no comportamento feminino. A moda se alternou entre as arrojadas minissaias e o visual hippie. Tentando imitar a modelo Twiggy, milhares de adolescentes de todo o mundo foram levadas à anorexia. Unhas postiças, cabelos lisos e várias camadas de cílios faziam parte do cotidiano. Muita maquiagem, saias curtíssimas e meias arrastão completavam o look da época.
O visual hippie trouxe de volta as saias longas e uma maior liberdade de se vestir, especialmente para os homens. Mas a magreza era essencial, assim como os seios pequenos. Os anos rebeldes também fizeram as mulheres pagarem um preço alto pela beleza.
Os anos 80 e 90 marcaram o início da era do “culto ao corpo”, em todo o mundo surgiram as academias e a cobrança de corpos perfeitos, belos e saudáveis. Vencidas pela impossibilidade de conseguir tudo através de exercícios e dietas, as mulheres começaram a usar as cirurgias plásticas como um recurso para modelar seus corpos.
Hoje temos um arsenal de produtos como silicone, botox e dmae que prometem realizar o mais antigo sonho da humanidade: a juventude eterna.
Qualquer preço
Segundo a curadora da mostra Denise Mattar, “se você olhar com atenção uma banca de jornais, ler as manchetes das revistas, vai tomar um susto. Hoje tornou-se uma obrigação não apenas ser bela, mas ser maravilhosa, sexy, quente, competente. As mulheres começaram a se utilizar das cirurgias como um recurso banal para modelar seus corpos. Nossa miss Brasil fez 16 delas para ganhar o concurso, os seios de atrizes e personalidades são turbinados e discute-se a quantidade de mililitros de silicone utilizada. O ideal de beleza de cada sociedade inicialmente responde a motivos políticos, econômicos e sociais”, diz.
E depois completa: “A moda, as artes plásticas, o cinema e a fotografia refletem estes padrões, que em pouco tempo são levados ao exagero, até que surja um novo. A partir dos anos 1950, a indústria da beleza tornou-se uma das mais lucrativas da sociedade de consumo e, para mantê-la em permanente funcionamento, as mudanças têm um ritmo cada vez mais rápido. É importante observar que em nenhum momento a mulher é apresentada, nesta mostra, como uma vítima da sociedade, mas como um agente que se utiliza da beleza como uma forma de poder. A sedução custa caro. E é desse preço que estamos falando.”
• Serviço
“O Preço da Sedução - Do Espartilho ao Silicone”
Visitação até 30 de maio, de terça a sexta, das 10h às 21h, sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h
Entrada franca
Visitas monitoradas para grupos, com agendamento prévio pelo telefone de informações (11) 3268-1832.
Itaú Cultural - Avenida Paulista, 149 - Estação Brigadeiro do metrô