O conceito de que “os bons exemplos vêm de cima”, ao que nos parece, nasceu com a humanidade. Aliás, achamos uma idéia justa e coerente.
Já pela posição privilegiada, o “bem”, a “justiça” devem sempre provir do alto a imitar a emanação da Divindade.
Infelizmente em nosso país, a “cúpula” não foi capaz de assenhorear-se deste conceito. Usa-se a força em forma de pressão, desassociada da justiça e associada àquilo que causa constrangimento e intranqüilidade à sociedade. Lastreada em um caráter inconsistente, de uma irresponsabilidade sem limites, dominado pela concupiscência, a maioria aderiu ao vergonhoso e ímprobo “nepotismo”, tentando dar a este uma cobertura de legalidade, embora seja o mesmo cristalinamente imoral.
Nessas condições, em pouco tempo o “nepotismo” tornou-se o intróito de uma série de desmandos, como se fôra uma locomotiva a arrastar os vagões da imoralidade. Disto temos, dentre outros, os seguintes exemplos: desvios de altas somas de verbas públicas, negociatas ou arranjos mediante propinas, superfaturamento nas compras ou serviços públicos, venda de alvarás de soltura ou favoráveis à marginais-contrabandistas, traficantes de drogas ou entorpecentes, desvios de recursos financeiros públicos após depositados em estabelecimentos bancários de “paraísos fiscais” etc etc.
Para consolidar certas situações espúrias, alicerçam-se no corporativismo indecoroso bandoleiro e criminoso. Até as mais altas e respeitáveis instituições administrativas rebaixam-se a este ponto; aderindo a um corporativismo desclassificado, imundo. Daí, essa associação corporativista tornar-se carapaça craquenta e indestrutível das imoralidades.
Nessas condições a recomposição da situação moral político-administrativa no Brasil não ter qualquer probabilidade de partir da “cúpula”, uma vez que esta acha-se em evidente estado de destempero, com relação aos bons costumes. Ela teria que ter sua ordem invertida, iniciar-se na base, a fim de alcançar a cúpula. Teria que partir do povo, do setor social mais modesto. Precisaria iniciar-se antes que a epidemia da libertinagem moral venha, como uma nuvem de gafanhotos, alimentar-se da fímbria dessa sociedade.
Alhear-se a esse perigo, é chegar ao caos, onde muitas ações já se acham mergulhadas. Nações nas quais, não se consegue visualizar o menor resquício de civismo, de fraternidade, de humanismo, de amor ao próximo. Que nossa sociedade se alerte, exigindo da cúpula uma imediata recomposição dos princípios da moral, elemento essencial a uma sociedade político-administrativa organizada, como um dígno reforço à justiça, e à ordem administrativa desta nação. Esta ameaça de uma desorganização social, que paira sobre certas regiões do país; é fruto de hediondez e irresponsabilidade administrativa.
Áureo Corrêa de Souza