“Não tenho tempo”. Sem dúvida esta se tornou a frase mais pronunciada e ouvida em nossos dias. É comum ouvirmos: não tenho tempo para este ou aquele projeto, para aquela viagem, para isso ou para aquilo, mas de todas elas a mais preocupante para a sociedade humana está registrada em nosso subconsciente: “Não tenho tempo para meu filho”. Vivenciamos um momento ímpar na história da humanidade, onde a cada dia se exige mais trabalho, cada vez mais apenas um dos cônjuges assume a responsabilidade de pai/mãe em trabalhar e educar os filhos, ou ainda o desejo de auto-realização acaba colocando-os em segundo plano. Trazemos nossos filhos ao mundo e o primeiro fator com que nos preocupamos é a creche ou berçário onde ficarão.
Por necessidade ou não, acabamos criando o famoso “tempo de qualidade”. Pais ocupados talvez passem 15 minutos com filhos ou, talvez, algumas horas no final de semana, certos de que estão conseguindo suprir tudo do que a criança necessita. O “tempo de qualidade” visa a nada mais do que aliviar a consciência dos pais. É preciso aprender a comprar o tempo, pois quando se trata da educação de filhos não há atalhos, ou seja, aquilo que semearmos na infância ceifaremos na adolescência e na vida adulta.
Desta forma, os primeiros responsáveis pelo desenvolvimento das relações sociais são os pais; pai e mãe. O cérebro do bebê é como uma esponja que absorve o que o cerca, aguarda informações procedentes do meio exterior para se desenvolver, principalmente durante os anos de formação, processo esse que se inicia por ocasião do nascimento, primeiro com a mãe e em seguida com o pai. Caso essa ligação seja perdida muito cedo, possivelmente a criança terá sua habilidade de desenvolver relacionamentos pessoais prejudicada.
Dentro do processo natural de desenvolvimento, a criança tem desejo de explorar e aprender sobre tudo a que está exposta. Por isso, é natural inundar a todos com uma enxurrada de perguntas, as quais devem ser satisfeitas com respostas de qualidade e exemplos. Embora possa ser justificada a notória falta de tempo em nossa cultura, é bom reforçar a necessidade de ser modelo para os filhos, dedicar tempo de qualidade e em quantidade. Muito se tem falado sobre as conseqüências da falta de tempo, mas vencidos por um dia estressante, freqüentemente afastamos nossos filhos quando eles se aproximam de nós para narrarem algum acontecimento importante. As crianças crescem, damos-lhe brinquedos, roupas de marca e um aparelho de som, mas não lhe damos aquilo que elas mais querem, nosso tempo.
Ainda que algumas aptidões sejam aperfeiçoadas com os amigos ao longo da infância, os pais são os grandes responsáveis por ensinar seus filhos a reconhecer, controlar, canalizar seus sentimentos, ter empatia e lidar com sentimentos que o acompanharão por toda a vida.
A falta de tempo não traz conseqüências somente para a criança e adolescente, mas também para os pais que não desfrutam a companhia destes à medida que crescem. A criança que não encontra amor e apoio quando mais precisa tende a ir buscá-lo, na adolescência em outros jovens para substituir a carência. Encontro desastroso, pois serão verdadeiros guias cegos. Nesse momento, palavras, conselhos, explicações, nada mais será significativo. Falar de amor somente na adolescência soa falso. Não há cumplicidade e confiança na relação. Tempo em quantidade e em qualidade deixa marcas profundas, molda padrões, estabelece regras, dá autonomia, inspira confiança, forma amigos. Portanto, seja justo com você e com seu filho, deixe que ele assimile de sua conduta, não dê esse privilégio a outros. “Ensine bondade demonstrando bondade; boas maneiras, praticando-as; meiguice, sendo meigo; honestidade e veracidade, exemplificando-as” (Revista Despertai 1992).
A autora, Rosemeire Alves Lourenço, é educadora.