Referindo-se a surpresas, há-que se opinar, sem perigo de erro, que, se há aquelas que desagradam há também as que agradam in totum, umas produzindo o bem e outras realizando o mal. Ontem, tivemos uma das que têm tudo para satisfazer. Passou-nos tal prazer uma netinha, convidando outra para, ambas e mais alguém, irem ver com que cara ficou a copaíba da Getúlio Vargas depois que a prefeitura decidiu não sacrificá-la e a reurbanizou fazendo com que a natureza pintasse suas folhas com um verde esmeraldino verdadeiramente apaixonante. “Vamos lá, maninha, rever a árvore do vovô. Será que ainda existe, lá na histórica avenida, onde nasceu, há mais de 100 anos, quando a cidade também nascia?”, falava a menina em voz alta, ouvida até pela vizinhança.
“Por que árvore do vô?” - perguntamos-lhe para matar nossa curiosidade, despertada pelo fato de não nos julgarmos donos de nenhum presente da natureza. “Porque a bela copaíba estava condenada à morte, conforme projeto da prefeitura, divulgado pelo seu jornal, e você a salvou inteiramente com um artigo, publicado no JC, condenando o sacrifício do espécime”, foi a explicação imediata que tivemos, a qual nos satisfez, pois veio acrescentar-se a outra surpresa agradável qual seja a expressiva poesia, estampada na edição de domingo (Ao pé da letra), onde o seu autor, poeta Áureo Correa de Souza, enalteceu carinhosamente o arbusto, afirmando: “Aquela copaíba não é sofrimento. É a vida do homem que se alenta no renovado dia-a-dia”. Muito bem!
E lá se encontra a velha árvore, robusta, com uma saúde de ferro e beleza digna de uma miss universo, pois a equipe municipal ao invés de atirá-la ao solo deu-lhe remédios para viver quantos anos Bauru viva, entre os quais bancos confortáveis para seus visitantes, que são inúmeros, incontáveis mesmo, chegando de automóvel, motoca e até à pé e se assentando para descansar, dialogar, namorar e ver a banda passar, ou, ainda, encantar-se com a circulação de aviões que sobem ou descem quando estão no horário, não lhe sendo negada nem a admiração da Polícia Federal, que decidiu parar de ouvir o barulho do Centro para morar na proximidade da copaíba com o aconchego do seu silêncio. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos velhos Jornalistas do Estado.
“Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha. Se alguém te obrigar a andar uma milha, caminha com ele duas. Mateus 5. 41”.