Bairros

Favela afasta frio com lixo e fogueira

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

As palavras da Bíblia e os conceitos da Teoria Geral do Estado, livros encontrados no lixo e recuperados com cuidado, distraem e levam esperança às noites geladas da dona de casa Patrícia de Oliveira, enquanto ela vigia o sono dos filhos envoltos em cobertor de lã gasta. O tecido fino, também recolhido na rua e restaurado por ela, pouco protegia do frio que assolava anteontem a favela localizada às margens da avenida Comendador José da Silva Martha.

Não fosse o interesse pela leitura e a feição de menina, a história de Patrícia, 28 anos, seria igual a de outras 20 mil pessoas que vivem atualmente numa das 17 favelas ou num dos 18 bolsões de pobreza de Bauru e que diariamente tentam encontrar um meio para se proteger das baixas temperaturas, especialmente durante a madrugada.

“As crianças dormem todas juntas. Fica mais quente. O duro é que, além do frio, tem a fome. Na escola tem dia que servem só arroz (canja). Temos pouca comida. Minha mãe mandou alguma coisa”, comenta a dona de casa, enquanto o marido de chinelo e bermuda mostra os armários desabastecidos da cozinha.

Dos quatro filhos, que têm idade entre 8 e 13 anos, Douglas Aparecido de Oliveira, de 10 anos, resfriado como os irmãos, levanta descalço e enfrenta a baixa temperatura para acompanhar os pais durante a visita da reportagem. Ele ajuda a mãe a contar que quando a vizinhança lhe dá alguma peça de roupa, ela a recupera para vender e comprar comida.

O companheiro dela trabalha como catador de papel, mas a remuneração obtida com a atividade é insuficiente para o sustento da família. “Se eu não tivesse fé, já teria cometido um ato ilícito”, diz Patrícia esbanjando o vocabulário que aprendeu lendo o Código Penal, também encontrado no lixo.

Ela confessa que gostaria de ser advogada, mas seu desejo imediato é o de acabar com a fome e o frio dos filhos. “Aqui não está vindo nada (roupa doada em campanhas do agasalho). Tem gente passando necessidade”, diz o jardineiro Cláudio de Jesus Ribeiro, 29 anos, que vive na favela da Vila Zillo, a menos de 300 metros de casas luxuosas.

Fogueira

Anteontem à noite, ele e dois amigos se esquentavam ao redor de uma pequena fogueira. Conforme o JC constatou ao circular pelos bolsões de pobreza da cidade, o calor das chamas, além de iluminar os bairros, tornou-se alternativa para a falta de cobertores e agasalhos ainda menos eficientes por causa das habitações precárias, na maior parte das vezes construídas de madeira.

“Eu pego a brasa quente, coloco dentro de um latão e ponho no quarto para esquentar. Não é perigoso (a possibilidade de intoxicação com a fumaça) porque a casa tem muito buraco. Também durmo de touca, luva, meia e duas calças”, conta Cláudio. Dentre as dificuldades provocadas pelo frio, a que ele elege como pior é “a hora do banho”.

“Tem que ser no máximo até as 17h30, depois não dá. Eu esquento água (cerca de 20 litros no fogão à lenha). Tem que ser rápido”, confessa com os olhos nas labaredas quase apagadas.

Há poucos quilômetros de lá, na favela do Parque das Nações, o fogo que aquece Reginaldo Camargo Tobias, Caio César da Silva e Dênis Cristiano dos Santos também se esvai e anuncia o momento de ir para cama. “A gente fica aqui quase todo dia até 21h ou 22h, até esquentar. Vamos dormir mais cedo (que nos dias mais quentes). A diferença (de temperatura) aqui é de três ou quatro graus por causa do rio (córrego Água da Ressaca)”, murmura Reginaldo, econômico nas palavras.

União

Por causa do frio, Denise Cristiane dos Santos se aproximou da fogueira para chamar o filho Dênis de 7 anos que, junto com os amigos mais velhos, também aproveitava o resto de calor das brasas, antes de compartilhar a mesma cama com a mãe e dois irmãos, sendo um de 8 meses.

“Dormimos mais cedo e todos juntos para esquentar. Deitamos de roupa e coberta”, explica Denise, que nem sempre pode proteger dos filhos das baixas temperaturas. Há uma semana, quando o bebê recebeu alta do pronto-socorro, a chuva invadiu a casa dela e molhou todas as roupas e móveis da família.

“Eu só rezava para não precisar tirar o menino (de colo) para chuva. Ele iria direto para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Até hoje (anteontem) tem coisa úmida em casa”, conclui apressada com o mais velho no colo.

____________________

Fogo

Embora o Corpo de Bombeiros não atenda freqüentemente casos de incêndio provocados por fogueiras acesas durante o inverno, o risco não está descartado. “(O fogo) é perigoso em qualquer situação”, alerta o 1.º tenente do Corpo de Bombeiros, Adilson Reis.

De acordo com ele, levar brasa para dentro de casa também não é recomendável porque a fumaça pode provocar intoxicação. “A quantidade de gás carbônico pode ser maior que a de oxigênio. Dependendo do nível, pode até causar a morte. É igual em incêndio: tem gente que morre sem queimaduras, com intoxicação”, explica.

Comentários

Comentários