Tribuna do Leitor

Benção de ter e ser vizinho


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Neste dilúvio de más notícias que atravessamos, das mais variadas, vindas de todos os lados pelos mais diversos meios de comunicação em que quase nos afogam de pessimismo, vez ou outra deparamos com alguma que constitui verdadeiro alento para estes tempos difíceis. Como o caso noticiado recentemente pelo JC que, se de um lado também constituiu uma tragédia, do outro me emocionou pelo desfecho feliz que acredito tenha gerado idêntico sentimento em muitos leitores.

Tratou-se de uma criança de 1 ano e 7 meses que durante horas, ou talvez até dias, ficou ao lado do corpo rígido do pai, um humilde catador de papel como aquela centena que vemos pelas ruas da cidade e cuja morte foi causada por circunstâncias naturais. Por sinal, apesar de miserável, foi um amoroso pai, segundo os vizinhos.

O angustiante e contínuo choro da criança escutado pelos vizinhos fez com que estes se unissem e invadissem o barraco deparando com um triste quadro que poderia ter um desfecho mais trágico ainda. Segundo os relatos do repórter JC, a criança tentava sair pela porta do cômodo onde morava; os farelos e arroz espalhados pelo chão indicavam que ela tentou se alimentar sozinha. Fezes e sangue horrorizavam o ambiente! “Pegamos o bebê e demos banho. Ele estava todo sujo. Trocamos a fralda, demos leite e pão”, declararam os vizinhos.

O quadro foi chocante para os próprios policiais que atenderam à ocorrência, cujo sargento declarou “tratar-se de uma triste mazela social”. Este acontecimento, que não deve ser único, primeiro ou o último, não sendo exclusivo de famílias miseráveis e pobres, podendo ocorrer mesmo em uma da classe média ou rica, nos traz à mente a importância do vizinho, decantado e glorificado pela poetiza Cora Coralina,, que escolheu 20 de agosto como o seu dia. O vizinho, tanto do lado como da frente de nossa casa é aquele que, sem pretender fiscalizar, conhece os nossos hábitos familiares assim como conhecemos os seus.

É aquele que sabe onde trabalhamos, quem fica em casa, os horários de nossa saída e chegada. É aquele com o qual conversamos por cima do muro ou no portão. É aquele que, atendendo a um nosso grito ou verificando qualquer movimento diferente, nos acode como assim nós os acudimos. Aquele a quem entregamos a chave de nossa casa, que recolhe o nosso jornal, o qual embora fiquemos dias sem nos encontrar ou conversar, atento, está sempre presente nos alegres e tristes momentos.

Existe uma afirmação sábia que define que o vizinho é mais importante do que o próprio parente, pois na hora da precisão ele está pronto a nos acudir enquanto que o parente na maioria das vezes mora longe. Justificando portanto o título desta matéria, ter vizinho é uma bênção porque nunca estamos sozinhos e ser vizinho também o é pela oportunidade que temos de sermos solidários em algum momento.

Aos vizinhos do infortunado catador de papel e responsáveis pela salvação da criança, Euclides Paula Júnior, Mauro Ribeiro Araújo assim como a toda a vizinhança e aos demais que participaram deste drama que felizmente teve um desfecho parcial feliz externo a minha admiração e respeito. Que Deus os recompense e que aprendamos mais ainda com esta lição de vida! Feliz quem tem e é vizinho! (Professor Joaquim Eliseo Mendes)

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