Uma pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) revela que a incidência do fumo é maior entre pessoas de baixa renda. De acordo com o levantamento, 46,8% dos fumantes brasileiros ganham entre um e cinco salários mínimos, enquanto 14,1% recebem mais de dez salários mínimos.
A constatação reforça o tema da campanha desse ano da Organização Mundial de Saúde (OMS), “Tabaco e pobreza - círculo vicioso”. De acordo com a diretora da Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Josiane Fernandes Lozigia Carrapato, não que o vício só ocorra entre a população de baixa renda, mas ele acaba sendo mais intenso nesse segmento da população. “É uma característica dos países em desenvolvimento”, ressalta.
Hoje, Dia Mundial Sem Tabaco, estarão sendo realizadas uma série de campanhas visando conscientizar as pessoas sobre o risco de fumar. Em Bauru, haverá palestras e distribuição de panfletos e frutas no Calçadão da Batista de Carvalho.
Outra pesquisa, realizada pelo Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que um fumante de baixa renda só procura tratamento quando tem, pelo menos, duas doenças crônicas ligadas ao fumo.
Uma das grandes dificuldades do dependente de baixa renda é encontrar apoio na rede pública de saúde para ajudá-lo a deixar o vício, um dos piores entre todos os tipos de drogas.
No Brasil, existem apenas seis centros de referência do Sistema Único de Saúde (SUS) para atender cerca de 32 milhões de tabagistas.
Um deles funciona no Hospital das Clínicas de Marília (100 km de Bauru) há quatro anos. De acordo com Ana Teresa Zuim, assistente social da instituição, o ambulatório atende cerca de mil pacientes por ano. “Eles recebem um atendimento completo, com profissionais de vários setores da saúde, além de medicamentos e de acompanhamento para os momentos de maior dificuldade”, salienta.
Ela diz que o índice de recuperação gira em torno de 27% a 30% do total de pessoas que passam pelo tratamento. “É um número considerado alto. Quando inauguramos o serviço, acreditávamos que se tivéssemos um índice de 3% já seria uma vitória”, destaca Zuim.
Força de vontade
A assistente social explica que, para que o tratamento funcione, é preciso força de vontade por parte do fumante. “É a própria pessoa que precisa procurar o tratamento, consciente de que quer largar o tabaco”, destaca.
O acompanhamento dura um ano. No início, as sessões são semanais e, com o tempo, passam a ser mensais. Caso sinta muita ansiedade e entre em crise de abstinência, o paciente pode procurar ajuda no ambulatório do Hospital das Clínicas ou até mesmo por telefone.
Zuim conta que a instituição atende todas as classes sociais e a procura é igual no que tange ao sexo. “Podemos dizer que 52% são homens e 48%, mulheres”, salienta.
O auxiliar de enfermagem Lúcio Adelino Alves, 40 anos, fez o tratamento e está há quatro anos sem fumar. Dois foram os fatores que o levaram a tomar a decisão: “percebi que o cigarro estava me fazendo mal e eu estava gastando muito com ele”, destaca.
Ele, que fumou durante 23 anos, conta que até hoje sente vontade, mas aprendeu a se controlar. “Eu larguei o vício de uma vez e, quando dava fissura, tomava água.”
Além disso, ele tomou medicação para controlar a ansiedade e recorria aos profissionais do hospital sempre que estava com crise de abstinência. “Hoje me sinto bem melhor sem o cigarro, eu engordei, meu apetite aumentou”, conta.
Para Joana (nome fictício), outra ex-paciente do hospital que preferiu não se identificar, a vida pós-tabaco tem outro sabor. “O cigarro incomoda demais, quem fuma e quem está em volta”, afirma.
Ela vai completar quatro anos sem fumar e conta que o que a fez tomar essa decisão foram complicações no aparelho respiratório. “Eu tive uma série de problemas, como sinusite, inflamação. Foi aí que percebi que estava na hora de me cuidar”, salienta.
Joana conta que já tinha tentado parar de fumar duas vezes, mas acabava voltando ao vício. Só depois de fazer o tratamento é que se livrou do tabaco. “Do meu grupo, que tinha 10 pessoas, 30% conseguiram se livrar do cigarro”, lembra.
O centro de referência do Hospital das Clínicas atende pacientes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde da região de Marília, que compreende a Diretoria Regional de Saúde 14 (DIR-14).