Cerca de 116 milhões de eleitores se preparam para receber o pacote eleitoral, que já começa a ser envelopado nessa fase de pré-campanha com os primeiros acenos de eventuais candidatos ao pleito de 3 de outubro. Entre as questões que geram mais curiosidade, uma está na lista das mais recorrentes: que motivações influenciarão o voto e quais os perfis de maior aceitação pelo eleitorado? Afinal de contas, não se pode esquecer que um monumental sistema emissor de informações e opinião disseminou, nos últimos anos, vasos comunicantes por espaços sociais e geográficos, esboçando perfis políticos, plasmando mitos, induzindo pensamentos, comportamentos e decisões, alimentando polêmicas, construindo, enfim, uma base de valores para formação da opinião pública nacional. Na medida em que parcela apreciável da população se decepcionou com muitos “produtos“ vendidos, por perceber que, em alguns casos, comprou gato por lebre, a desconfiança se instalou na mente do eleitor, criando muita confusão entre o grupo de profissionais experientes na arte de influenciar as decisões coletivas.
Mudança foi o valor que inspirou os discursos nas últimas campanhas políticas. Mudar significa alterar, romper situações tradicionais, avançar. Mexendo com o sistema de percepção social a respeito da realidade e proporcionando um cenário projetivo sobre o amanhã, a mudança traduz a promessa de melhoria de vida, de bem-estar, de maior taxa de felicidade pessoal e grupal. Quando determinado perfil identificado com mudança não concretiza esse “sonho”, o discurso antigo acaba se transformando em bumerangue, ou seja, volta-se contra o autor. Na eleição deste ano, prometer mudança pode significar cair na mesmice. De tão usado, mudar tornou-se um verbo roto, que os eleitores jogarão na lata do lixo.
Realização tem sido outro valor “vendido” na composição do perfil de candidatos. Campanhas eleitorais, tendo como vértice o eixo clonado da “fazeção” (fulano fez, fulano faz), espalharam pelo País a idéia de que alguns prometem e outros realizam. Experiência administrativa, feitos da vida política, ações administrativas e projetos considerados positivos e benéficos constituem o estofo de discursos eficazes, na medida em que a comunidade nacional, vacinada contra excessos verborrágicos, quer ver as coisas acontecerem. Os planos devem sair do papel para a realidade das ruas. Nesse ponto, a inflexão em torno do “rouba, mas faz”, cuja história começa nos tempos do governador Ademar de Barros, de São Paulo, com capítulos contemporâneos escritos por perfis da velha política, já não provoca tanta adesão. A roubalheira que tem sido objeto de denúncias intensas e constantes da mídia, na vertente de escândalos perpetrados por políticos, assessores e amigos dos mandatários, está contribuindo para a pulverização de uma vacina ética na sociedade. Por isso, o sucesso de uma campanha balizada pelo matiz da “ação” dependerá do “fazedor”. Passado limpo, vida decente, eis um refrão que poderá funcionar este ano como exorcismo contra perfis muito sujos.
Como se pode depreender, as motivações para a decisão de voto abrigarão componentes de verificação e comprovação de promessas e propostas. Significa que os candidatos encontrarão pela frente um sistema racional mais denso do que em campanhas anteriores. As idéias expostas deverão passar pelo teste da viabilidade política e econômica. Não adiantará apenas expressar “quês” mas “comos”, ou seja, os modos que orientarão a implantação dos programas. Além disso, o eleitor quer ver projetos simples, objetivos, que tragam melhoria imediata para seu cotidiano. Se a administração em curso realizou bons projetos e desenvolve ações de resultados aplaudidos pela comunidade, por que mudar? Este será mais um elemento que estará no centro de atenção dos conjuntos eleitorais (...)
O sentido da autoridade será também bastante apreciado pela população. E a razão para a ênfase neste valor é o pano de fundo da improvisação administrativa, da barbárie imposta pela violência e pela agressão à propriedade e da tibieza de mandatários que, sem pulso, deixam a situação correr ao sabor das circunstâncias. Respira-se um ar de desorganização, que se reflete na precariedade dos serviços públicos e no descumprimento das leis. Uma voz de autoridade virá preencher lacunas, impor ordem nas coisas e estabelecer limites entre o certo e o errado, o lícito e o ilícito. É claro que perfis carismáticos serão sempre muito bem acolhidos, mas eles têm sido carcomidos pelos padrões de uma política imbuída de interesses negociais e empreendedorismo aventureiro. Portanto, repetir discursos desmoralizados de campanhas anteriores, mais que cair no vazio, é dar com os burros n’água. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)