É difícil trabalhar no Brasil. Além de um índice de desemprego que atingiu o recorde de 13,1% no mês de abril, os felizardos que conseguem trabalho nas grandes metrópoles gastam tempo precioso presos em um trânsito cada vez mais complicado. Uma pesquisa da Secretaria Municipal do Trabalho paulistana indica que o morador da Grande São Paulo perde, em média, 1h32 para chegar ao trabalho diariamente, demora que, quantificada em valores monetários, significa um prejuízo de R$ 26 bilhões ao ano para a economia.
Horários de reunião passam marcados pela demora do trânsito, sempre com a esperança de que a chuva não venha, o que atrapalharia ainda mais as andanças pela cidade. Ao gigantesco desperdício financeiro e diminuição da produtividade, soma-se o desgaste emocional de quem passa horas dentro de um carro, sob o estresse da direção, ou pior, em pé dentro de um ônibus lotado. Como detectou a mesma pesquisa, quem mais sofre com o trânsito é o trabalhador de baixa renda, que mora na periferia, longe dos locais de trabalho.
É importante levantar o debate: a Justiça brasileira não considera parte da jornada de trabalho o tempo gasto em transporte, mas talvez seja hora de isso acontecer. Em especial para os funcionários mais humildes ou os que moram muito longe do emprego, seria justa uma remuneração pelas horas perdidas no trânsito.
Ao mesmo tempo, precisamos de medidas mais sérias na área de transporte de nossas grandes cidades, mesmo que algumas sejam impopulares, como a adoção de um sistema de rodízio mais amplo, acompanhado de um aumento na frota de ônibus e maior freqüência nos metrôs. Além da óbvia necessidade de melhorias na rede de transporte público, é preciso que as prefeituras tenham planejamento de obras que não sirvam apenas para cumprir objetivos eleitoreiros, mas respeitem a cidade e seus moradores.
A prefeitura paulistana anunciou que usará o levantamento da Secretaria do Trabalho para adotar políticas de transporte, como a adoção do bilhete único. Mas como fazer políticas de transporte em uma cidade de tráfego engessado, por culpa de obras monumentais iniciadas por essa mesma administração?
Por fim, o cidadão pode tentar se defender na Justiça. É cabível, por exemplo, entrar com uma ação contra as prefeituras municipais alegando prejuízo da empresa em decorrência de obras no caminho do trabalho. Há, evidente, dificuldade em se quantificar e comprovar os prejuízos com o trânsito caótico. Mas quem sabe, ao tentar firmar jurisprudência no assunto, não conseguiremos políticas de transporte mais sérias em nossas metrópoles?
A autora, Sylvia Romano, é advogada em São Paulo.