Cultura

Invencíveis

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

O 12.º disco da banda paulistana Ira! chega às lojas essa semana com ares de trabalho inédito. É quase isso. O “Acústico MTV Ira!”, lançado pela Sony, traz algumas canções novas em meio a versões “desplugadas” de músicas que fizeram a história do grupo formado por Edgard Scandurra, Nasi, Ricardo Gaspa e André Jung. O CD promete ser daqueles que vão ficar por muitos meses nas paradas - aliás com é comum com os acústicos atualmente. Segundo Marcos Valadão Rodolfo, o Nasi, que falou ao JC na última quinta-feira, o grupo tem gás de sobra apesar de mais de duas décadas de carreira. Confira os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia de gravar um acústico?

Nasi - Foi um convite que tivemos da MTV há um tempo atrás. Estávamos planejando fazer o disco no segundo semestre de 2004. Em 2003, estávamos compondo um disco novo, que concluímos para gravar no final do ano, daí houve um embaralhamento. Tivemos uma crise fonográfica que impediu o lançamento do disco em 2003, ele poderia ser lançado só no ano seguinte. Como tínhamos o projeto com a MTV resolvemos fazer um acústico com músicas novas. Juntamos os dois projetos, até porque as composições novas tinham uma característica muito propícia para o acústico.

JC - Há quatro anos o Ira! lançou o “Ao vivo MTV”, isso não atrapalhou na escolha do repertório para o acústico? Não houve um receio de ficar muito repetitivo?

Nasi - Usamos o mínimo de repetição possível. O “Ao Vivo” foi um disco bom pra gente porque foi um CD comemorativo de 20 anos, um disco elétrico como nossos show geralmente são, então decidimos por apenas quatro músicas em comum com aquele disco: “Dias de Luta”, “Envelheço na Cidade”, “Núcleo Base” e “Flores em Você”. Isso nos proporcionou a chance de fazer um disco menos óbvio, com espaço para muitas músicas novas e composições que a gente chama de “lado B”.

JC - “O Girassol” por exemplo?

Nasi - É, “O Girassol” é um bom exemplo. Muita gente acha que a música é inédita, mas é do disco “7”, de 1996. “Eu Quero Sempre Mais” também é desde disco, que não teve tanta repercussão. Outras músicas também, como “Rubro Zorro”, do “Psicoacústica”, de 1988, que só agora foi lançado em CD... “Boneca de Cera” também... “15 Anos”, que apesar de ser de um disco de sucesso da gente, o “Vivendo e não Aprendendo”, não foi tão executada.

JC - Apesar das regravações, o disco chegar a soar como se fosse inédito.

Nasi - Nós não faríamos o disco se não tivéssemos essa carga de novidade. O público médio, que não é aficionado do Ira!, não tem todos os discos, vai conhecer meia dúzia de músicas, o resto vai soar como novidade. Isso é bom porque além da novidade do formato acústico, que é uma oportunidade da gente refrescar um pouquinho tocando as coisas de uma maneira diferente, para quem ouve soa como novo. É um disco que a gente sente nele mais uma carga de coisas inéditas do que aquele ranso revisionista.

JC - Os arranjos das quatro músicas mais famosas do grupo foram refeitos por isso?

Nasi - Exatamente, por exemplo “Dias de Luta”, quebramos a cabeça para deixá-la diferente. Tiramos o riff na introdução tradicional, colocamos o flamenco e eu já começo cantando, pegando o público de surpresa porque eles estão acostumados com o riff que antecede a música. Em “Envelheço na Cidade” os Paralamas tocam com a gente, numa momento denso do disco, “Flores em Você” está diferente do que a gente vinha tocando, que era uma versão pauleira, quase punk. Imitamos, sem as cordas, só com um violino, o arranjo original. Em “Núcleo Base” há uma pegada diferente, bossanovista, com um arranjo de guitarra legal do Thiago Castanho, que incluiu umas coisas que não tinham no original.

JC - O Ira! tem estado em evidência nos últimos anos desde o disco “Você não Sabe Quem eu Sou”, de 1998. Mas nem sempre foi assim, alguns discos passaram batido. Como foi esse retorno?

Nasi - É verdade, principalmente na década de 90... Foi um retorno lento e gradual. Nos anos 90 a gente uma crise no rock em geral. A gente mesmo ficou um período contratado pela Warner mas sem perspectiva na gravadora... Foi uma época muito errática pra gente em termos pessoais, uma época de excessos. Nos anos 90 eu “meti o pé na jaca” legal. No final da década a gente deu uma reciclagem legal e no disco “7” começou o ressurgimento do Ira! Fizemos uma turnê pelo Japão em 1995, já em crise. Crise existencial, dúvidas sobre a carreira... Quando voltamos assinamos com a Paradoxx, uma gravadora com menos recursos mas que nos deixou à vontade para fazer dois discos que eu considero bons, o “7”, um disco “garajeiro”, de guitarra, básico, que nos reconduziu às rádios de rock e o “Você não Sabe Quem eu Sou”, um disco experimental que tocou pouco nas rádios mas rendeu boas críticas. Ganhamos o prêmio da APCA de melhor produção de rock e tivemos elogios rasgados de todos os lados, o que ajudou a recuperar a moral do Ira!. Daí fomos para a Abril e foi uma fase legal, fizemos “Isso é Amor”, que foi elogiadíssimo, ganhou prêmio, tocou bastante e fizemos o “Ao Vivo MTV”, que foi bem. Eu acredito que a volta do Ira! começou modesta, ali na Paradoxx. O Ira! mostrou que tem muita coisa ainda pra fazer.

JC - Depois de 23 anos de carreira o gás é o mesmo?

Nasi - Pode ter certeza. Se eu pudesse voltar aos meus 20 anos eu diria: “jovens, envelheçam”. Nosso gás é o mesmo, há um tesão de fazer as coisas muito grande. Acho que através das nossas carreiras solo não fizemos com que o Ira! fosse uma gaiola de ouro. Temos trabalhos distintos que ajudam a dar um oxigênio criativo. Não vemos o Ira! como uma obrigação, estamos aqui porque temos prazer e porque tem um público que nos quer também.

JC - Como você vê o sucesso das novas bandas do rock nacional? Melhor do que o que estava rolando antes?

Nasi - Sem dúvida. É engraçado, hoje a gente vive um revival dos anos 80, todo mundo fala do rock dos anos 80. Quando aquela década acabou eu lembro que se cuspiu muito no rock dos anos 80, chamaram de “a década perdida”, disseram que o rock nacional acabou com música... Aí começaram as primeiras coisas de música baiana, sertaneja... Eu lembro de ter ouvido: “agora é a vez da música brasileira”, como se nós não fôssemos. Eu brincava dizendo: “então agora segura o tchan”. O que a gente viu - tirando alguns nomes que renovaram a música brasileira - o que a gente viu foi um grande lixo comercial tomar conta da música. Depois disso que surgiram pessoas dizendo: “a gente era feliz e não sabia”, “os anos 80 eram tão legais”. Porque os anos 90 foram tão medíocres... Surgiram alguns nomes, mas o pagode quase acabou com o samba, o axé quase acabou com a moral da música baiana, a sertaneja só tinha a bota e a espora de sertaneja mesmo. No Brasil há uma tendência de se indexar a música em épocas. Para mim isso não existe, o que tem é música boa e música ruim. Isso independe de idade e de longevidade, muito pelo contrário. Não é porque um artista é jovem que ele é revolucionário e não é por ele ter uma certa idade que é conservador.

JC - Como foi tocar com os Paralamas?

Nasi - Foi superlegal, foi um momento épico por tudo o que eles representam musicalmente e também por eles como pessoas, pelo exemplo de superação. É um momento que a gente mostra uma das características principais do rock na nossa vida que é a sensação de sermos invencíveis. O rock traz isso. Eu acho legal porque poucas bandas da nossa geração sobreviveram até hoje com a mesma formação. Além da riqueza musical que a nossa versão criou, acho que ela passa essa coisa heróica de bandas que até hoje estão juntas “passando por cima de tudo”, como diz a música.

JC - Quantas pessoas por dia dizem que você está parecido com o Wolverine?

Nasi - Eu sou o Wolverine (risos). Em 1990, eu usava uma costeleta maior e já me falavam isso porque eu sou um grande fã do Wolverine. Tenho uma coleção de quadrinhos do Wolverine e também do Logan, sou aficionado pela obra do Stan Lee e acho o Wolverine interessante porque ele é politicamente incorreto, contraditório. A pedido da revista da MTV eu fiz um ensaio como o personagem, aí o alter-ego tomou conta do ego e agora vai demorar para tirar ele daqui (risos).

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