Quando o microônibus pára em frente a propriedade do “seu” Nelson, na área rural de Gramado, a preguiça parece tomar conta do corpo, convidando ao aconchego nas cadeiras estrategicamente colocadas na varanda.
A casa assobradada ganhou ares modernos por conta de ladrilhos antiderrapantes, TV a cabo, luz elétrica e outros confortos da vida moderna, mas continua ali imponente como testemunha de tempos difíceis vencidos graças à persistência do “nonno” e da “nonna”.
Herdeiro de italianos, Nelson Cavichion tem orgulho do moinho instalado ao lado da casa dividida hoje com a mulher, Célia, e três filhos. Foi ali na casa da farinha, que seus antecedentes colheram o fruto do que plantaram numa época difícil e fincaram suas raízes na Serra Gaúcha, transformando-a no pedaço mais europeu do Brasil.
No início do século, eram comuns os casamentos entre imigrantes. Muitos entre primos e primas, diante da “escassez” de gente. O que acabou sendo um fato positivo. Dona Célia, por exemplo, casada com neto de italianos, tem olhos de um azul celestial infinito, herança dos avós alemães, um dos primeiros colonizadores que se instalaram em Nova Petrópolis.
Com filhos criados, os dois vivem como gostam. Cultivam a boa terra que lhes dá milho, arroz, uvas e laranjas doces ou laranja do céu, conhecidas aqui em São Paulo como lima.
Dentro do moinho, o chefe da casa dá aos turistas que o visitam uma aula de como era a vida no campo no início do século. Enquanto o “nonno” saía para colher e depois processar os grãos, a “nonna” se encarregava das tarefas domésticas envolvendo pesados ferros à brasa para mais tarde preparar a bela polenta para o jantar de toda a família.
De acordo com a agência Turistur, que opera em parceria com a CVC, em um ano de operação o passeio Raízes Coloniais recebeu 25 mil pessoas na propriedade.
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Que bela polenta!
Pertinho da propriedade dos Cavichion fica a Casa Centenária construída em madeira, com curral e lugar para a defumação dos famosos salames da serra e a fazenda das famílias Foss e Reck. Na região das hortênsias, as propriedades rurais são assim chamadas, ao contrário da região de Bagé e Uruguaiana onde o termo estância é o usual.
Pedro, Zulmira, Angelino e Selvino, dos Foss e Reck, são de uma alegria cativante, como a maioria dos moradores daquelas “plagas”.
Antes mesmo do visitante cruzar a portão da propriedade já é recebido com moda de sanfona, e o aroma convidativo de pães e cucas recém-saídos do forno para serem devorados logo mais com queijo curado, vinho e quentão.
Roteiro até então desconhecido de muitos turistas e que acaba de ser resgatado pela Viagens CVC capitaneada por Guilherme Paulus. Homem de visão, percebeu que além de ver com os olhos a variedade de paisagens, atrações, vida noturna e gastronomia de Gramado, o visitante quer conhecer esse lado poético, descobrindo mais de uma época que remonta ao início do povoamento da região.