Finais felizes povoam o imaginário de qualquer pessoa. Todos querem para si um final feliz para cada situação, mas, muitas vezes, não se trabalha para construir um desfecho ideal. A massificação fez com que o universo interior se perdesse num turbilhão de modismos e padrões sociais, que acabaram prensando e rotulando até sentimentos e expressões.
“Se respirarmos, relaxarmos e fecharmos os olhos por um minuto e editarmos um filme de nossas vidas, quais cenas virão à tona e farão parte do nosso enredo?”, questiona ao público psicóloga e psicoterapeuta Regina Furigo no início da palestroterapêutica “Amor Enlatado - A Parafernália do Anti Ser”.
Com uma trilha sonora de fundo, o exame de consciência se passa como um comercial de nós mesmos, num misto de alegria e tristeza em momentos marcantes.
Nesse contexto, com a intimidade à flor da alma é fácil diagnosticar há quantas anda a nossa auto-estima. E, muitas vezes, não conseguir fazer xixi ou trocar de roupa perto de alguém representa muito mais do que um fator de pudor. Outras vezes, temos vontade de trocar de vida com outras pessoas e jamais acreditamos que o mundo estará melhor daqui a alguns anos. Não admitimos nossos erros, não conseguimos expressar gratidão e ainda queremos controlar tudo ao nosso redor.
“Nós, seres humanos, somos criaturas paradoxais. Quando nascemos somos frágeis e apenas um carinho nos é suficiente. Depois nos tornamos adultos e queremos ser poderosos, dominadores e dispensamos o carinho para ter coisas”, aponta Regina Furigo.
É essa cultura do ter em contraponto com o ser, que torna os indivíduos vulneráveis à massificação. Assim, coloca-se tudo em latas e fôrmas, inclusive os sentimentos e até mesmo o amor.
Em nome da aceitação, as pessoas acabam esquecendo os seus valores em função da moda e do consumo.
“Nós nos colocamos nas gôndolas, rotulamos e temos até data de validade. Aliás, hoje, o ser humano vale até os 35 anos, depois já é descartado do mercado de trabalho e precisa correr para se reciclar e tentar renovar o prazo de validade”, comenta a psicóloga.
Dessa maneira enlatada, as pessoas se rotulam de acordo com a moda, deixando de lado sua própria essência. “Isso é propaganda enganosa!”, adverte Regina.
Ter x ser
A palavra da desordem da sociedade é o sucesso que precisa ser conseguido a qualquer preço. A sedução pelo consumo é um passo para o abismo interior.
O significado da vida está em ter um celular prateado e um carro da moda, mesmo que se tenha um automóvel novo e um telefone que funcione perfeitamente, nem que para isso precisemos fazer crediários imensos.
Afinal, é o que nos faz ser aceitos pela sociedade. Na análise de Regina Furigo, o ser humano está perdido pela falta de si mesmo e carrega, a cada dia, um fardo mais pesado por não ter força interior.
A ânsia pela aceitação só será revertida a partir do momento em que a “arethê” (que em grego significa excelência) seja recuperada. “Não adianta um limoeiro querer produzir morangos. É necessário sim que ele produza os melhores limões”, exemplifica.
Um indivíduo sem auto-estima, cheio de complexos, sejam de superioridade ou inferioridade, e que não consegue perceber, assumir responsabilidades, e, muitas vezes, tem medo de amadurecer e se culpa por isso. Esta é parafernália do anti-ser.
Para a psicóloga, o ponto de partida para o processo de percepção é a idéia que cada pessoa tem de si, o resgate de suas raízes e de sua auto-estima.
“Não se pode ficar numa busca desmedida pelo que não se é. Precisamos ter um pouco da coragem de Narciso que ousa se olhar e gostar de si, do jeito que se é. Se somos como plantas precisamos lembrar da possibilidade de crescimento e da capacidade de frutificar várias vezes. Nossa beleza está em sermos o que somos.”