Tribuna do Leitor

O nobre lixeiro e a utopia


| Tempo de leitura: 2 min

Em tempos em que o ser humano olha para o próprio umbigo e espera que o resto do mundo exploda, descobri numa classe tão sofrida a verdadeira virtude. É só lembrar e sinto lágrimas nos olhos. Passamos juntos alguns dias lutando por respeito e resgate de nossa dignidade. Não se tratou de um movimento de baderneiros, mas de trabalhadores que gostam de seu trabalho e o realizam com amor, dedicação e responsabilidade, porém, pais e mães de família no direito de reivindicarem melhores condições. Não conseguimos, ainda, o que pleiteamos, mas me tomo de emoção ao recordar a mais nobre atitude dos amigos lixeiros que mesmo com suas dificuldades, que não são poucas, assumiram riscos ao apoiarem seus companheiros estatutários. Eu os agradeço de coração e sinto-me honrada por sermos companheiros de trabalho e luta. Nesses últimos dias, li e ouvi dizer que baixos salários e más condições de trabalho são problemas que ocorrem em todo o Brasil, e que o importante é estarmos empregados. Até concordo com estes companheiros e agradeço a Deus e a minha competência por estar empregada, mas isso não significa que devemos aceitar as perdas constantes que estamos tendo e deixar que pouco a pouco a miséria vá chegando e se instalando em nossos lares. Devemos lutar para amenizar as desigualdades e injustiças sociais, e não nos entregarmos ao conformismo. Isso seria o mesmo que o escravo dizer: “Não, não quero deixar de ser escravo, pois aqui pelo menos tenho a senzala para dormir e angu para comer”.

Pode parecer utopia querermos acabar com as desigualdades, termos salários dignos que nos permitam vestir e alimentar decentemente nossa família, plano de saúde que realmente funcione, educação de qualidade que proporcione aos nossos filhos a oportunidade de serem verdadeiros cidadãos e os levem às universidades, diversão que nos torne mais alegres. O que queremos é dignidade, e se isso é utopia, um certo dia acreditar que um avião poderia percorrer a atmosfera, também foi. Poder falar com alguém do outro lado do planeta, através do telefone, também foi. Não podemos deixar de acreditar, sejamos utopistas e lutemos. A vitória é daquele que entra na batalha e não daquele que espera na inércia. (Vera Lucia Gonçalves - RG 16.160.471)

Comentários

Comentários