Ultrapassaram, há pouco, os 240 anos da invenção do hidrogênio, a bomba que funciona no mundo a partir da fusão nuclear de um bombardeio de partículas de deutério (isótopo do hidrogênio) com um próton e um nêutron, que se fundem com outro deutério, formando o hélio e libertando energias suficientes para provocar os seus males. É ele o elemento que passou a surpreender os povos pela duplicidade de sua aplicação, a qual, ao mesmo tempo em que esvoaçava para a tão desejada paz, toma o sentido das detestáveis guerras, embora seja o mais simples dos 106 artefatos químicos já classificados. Constituído por apenas um elétron e um próton, ele recebeu dos cientistas o número um na tal escala clássica, estando, contudo, presente em 90% do universo, pois, participa, inclusive, das substâncias orgânicas compostas de carbono e de elementos oceânicos, como água e demais.
A partir daí, pode exemplificar-se que ele se esconde no óleo de algodão, margarina e certas gorduras comestíveis produzidas pelo processo denominado hidrogenação. Faz-se presente, ainda, na fabricação de adubos. Já na metalurgia é empregado junto ao transgênio e ao cobalto e, na produção de plásticos e materiais sintéticos, emprega o metanol, cuja matéria-prima é exatamente o hidrogênio. Teve o Brasil o privilégio de lançar, em 1979, o primeiro ônibus movido a hidrogênio, o qual, por isso tudo, como frisamos, não tem até hoje aplicação em obras unicamente a serviço da paz, eis que a primeira bomba foi lançada em 1951, pelos Estados Unidos, sobre o Atol de Biquíni, no Oceano Pacífico e, logo após, a então União Soviética enviaria a sua, seguida pela Grã-Bretanha e, em 67, pela China Popular.
Quinze anos depois, porém, precisamente em 1966, ele viria a propiciar tragédias no universo, a primeira das quais aconteceu em Palamares, diminuta aldeia do litoral espanhol, quando um avião B-52 da Força Aérea Americana chocou-se com outro e precipitou-se sobre a povoação com uma carga de quatro bombas da matéria, três das quais foram resgatadas, mas a outra caiu no mar, só vindo a ser encontrada dois meses depois. Penosas conseqüências precipitaram-se sobre os habitantes de Palamares, ficando com a vida completamente transtornada, forçada a destruir colheitas e toda a vegetação próxima do local e revolver cada área de terra arável para reduzir ao mínimo o perigo da contaminação radiativa.
Tem-se de destacar, então, outra vez, que o hidrogênio beneficia alguns setores, mas penetra também negativamente em amplos campos da população, tendo-se em vista que o lançamento de suas bombas na atmosfera causa anomalias letais duradouras, que não ocorrem imediatamente, mas a longo prazo, através da poeira que origina depois das explosões. Leucemia, sacoma e outras enfermidades figuram entre as conseqüências de suas reatividades.
Os cientistas denominaram sua poeira de “fallout” e, por tal motivo, até pessoas que habitem há mais de 500 quilômetros o local das emissões podem ficar com lesões na epiderme ou serem vítimas de tumores malignos. Desperte-se, portanto, para o fato inconteste de que o hidrogênio, mandando sua poeira para distâncias quilométricas, encarrega-se simultaneamente de levar destruição para quem esteja em paz. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.
“Como o embrião que dorme dentro da semente, todo vazio cede mais tarde ...”