Articulistas

Utopia desejável


| Tempo de leitura: 2 min

A democratização da globalização constitui um dos maiores desafios do século 21. É fato que até as democracias mais arraigadas se encontram em uma fase de debilidade por causa da globalização. No plano econômico, como conseqüência dos progressos tecnológicos, da racionalização dos sistemas de gestão e da otimização da produtividade, as grandes empresas se globalizam. No âmbito financeiro, devido à desregulamentação, à eliminação dos controles de câmbio, à inovação financeira e aos progressos das telecomunicações, a globalização é uma realidade.

O fenômeno da globalização é gerador de angústia, agrava as frustrações, destrói os vínculos tradicionais de solidariedade, marginaliza numerosos países e regiões inteiras do planeta. Esta situação representa riscos: guerras, exclusões, ódios, antagonismos étnicos e religiosos, que se alimentam de um clima semelhante. E haverá sempre as ideologias irracionais e fanáticas que proporão soluções falsas a povos desamparados.

A democracia global não pode se limitar a uma transformação das estruturas da democracia nacional. Deve ter por objetivo uma nova arquitetura específica, na medida em que não se dirige diretamente aos cidadãos, mas aos Estados, às empresas, às multinacionais, organizações não-governamentais, municípios e partidos políticos. Isso requer a criação de novas instituições políticas, bem como uma reforma das instituições internacionais existentes.

Como se pode contribuir para a democratização da globalização? Quatro grandes princípios deveriam guiar nossa ação. Primeiro, maior difusão da democracia no sistema das Nações Unidas, o que passa por uma reforma do Conselho de Segurança e pela consolidação do Conselho Econômico e Social. Em segundo lugar, é indispensável enquadrar as empresas transnacionais no processo de democratização, a fim de que deixem de aparecer como depredadoras que se aproveitam das lacunas da ordem social internacional, e que, ao contrário, atuem com protagonistas do desenvolvimento democrático.

Em terceiro, deve-se associar as aspirações dos atores sociais e culturais, organizações não-governamentais, municipalidades, universidades, parlamentos, partidos políticos, grupos religiosos, etc., à vontade dos responsáveis políticos e econômicos. Isto não é fácil, mas é imprescindível: embora os Estados não desejem incorporar os atores não-estatais ao processo de decisões, eles continuarão influindo sobre a evolução do novo sistema internacional.

Por último, se queremos evitar que a Guerra Fria de ontem se transforme em uma guerra de civilizações, atiçada por vastos movimentos migratórios internacionais e pelo terrorismo, é necessário defender a diversidade cultural e o plurilinguísmo, que é tão importante para a democracia planetária como o pluralismo partidário é para a democracia nacional. Estas idéias poderão parecer futuristas ou utópicas. Eu me obstino em querer acreditar que a paz entre as nações baseada na democratização da globalização é uma utopia desejável e possível.

O autor, Boutros Boutros-Ghali, foi secretário-geral da Organização das Nações Unidas, no período 1992-1996.

Comentários

Comentários