Grandes lutas sociais são conduzidas pela Igreja Católica, mostrando sua opção preferencial pelo pobre, pelo necessitado e o indefeso. E nada é mais cruel no mundo moderno e globalizado que o ser humano que tem idade de trabalho e quer trabalhar, especialmente para um pai de família, não ter emprego.
No Brasil há milhões de desempregados. A taxa nas seis principais regiões metropolitanas do País ficou em 13,1% (abril de 2004) ou mais de 2,8 milhões de pessoas sem trabalho nas áreas pesquisadas. Resultado: periferias mais pobres, desempregados lotando bares, onde bebem para esquecer o drama, muitos apelam para a droga (uma viagem sem volta para a maioria).
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, em seu artigo 23, diz: “Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha do emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para a proteção de seus interesses.”
E constatamos que esses direitos estão longe da realidade, tanto no Brasil quanto no mundo. A globalização reinventou a pobreza. O desemprego tornou-se o maior problema mundial. Para a doutrina social da Igreja, o homem é chamado ao trabalho pelo próprio Criador. O trabalho distingue o ser humano das demais criaturas deste mundo.
E pela palavra trabalho entende-se aqui tanto o trabalho manual quanto o intelectual. “O trabalho é uma dimensão fundamental da existência humana, pela qual é construída cada dia a vida humana, da qual recebe a própria dignidade específica” (João Paulo II, Lab. Exerc., nº 1).
O ser humano tem direito ao trabalho, porque pelo trabalho desenvolve suas capacidades e, desse modo, faz desabrochar todas as suas potencialidades. Pelo trabalho ganha o sustento para si e seus dependentes. Providencia para o tempo de descanso e para o futuro. Pelo trabalho, contribui para o bem comum da sociedade. O homem, quando trabalha, sente-se digno e respeitado.
Diz ainda o papa: “O trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial de toda a questão social” (idem, n.º 3). Nesse contexto, a Igreja tem afirmado tantas vezes seu apoio à reforma agrária e à demarcação das terras dos indígenas.
O trabalhador tem também direito a um salário justo. Ora, o atual salário mínimo é realmente irrisório e profundamente injusto. Duzentos e sessenta reais! Ainda alega-se que se fosse aumentá-lo arruinaria o sistema previdenciário. Mas, então, por que não se fez uma reforma adequada da Previdência? Por que não se paga a diferença como um programa social?
É preciso exercer o direito ao voto de uma maneira mais consciente, elegendo quem diz a verdade, mesmo que ela doa. E exercer nosso direito sagrado de reclamar e pressionar as autoridades que prometem, mas nunca cumprem.
O autor, Mário Eugênio Saturno, é tecnologista Sênior da Divisão de Sistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.