Se não bastassem as manifestações culturais, a beleza de seus prédios históricos, as ilhas dos búfalos e dos amores, as ervas de mil e uma utilidades, o Pará oferece a quem o visita uma hospitalidade marcante.
Presente todos os meses do ano, ela se expressa com maior intensidade em outubro, mês que coincide com o Círio de Nazaré.
Testemunhei, no ano passado, como a festa de Nossa Senhora de Nazaré movimenta o Estado e, principalmente Belém.
Os aviões aterrisam na “porta da Amazônia” lotados, levando paraenses radicados em todos os cantos do Brasil e do Exterior. O Círio, para eles, é muito mais que o Natal. É a data máxima do encontro das famílias. Uma espécie de Dia de Ação de Graças americano.
Viajei na única poltrona que restava num avião da Vasp saindo de São Paulo, com tempo hábil para participar das festividades. Não podia escolher janela, frente ou corredor, pois atrás de mim havia uma “leva” de gente ansiosa para decolar.
Cheguei a Belém com um calor abrasador - 32 graus, contra 15 de São Paulo, mas não vi ninguém se queixar. Pudera, no “hall” do aeroporto, os paraenses já se encarregam de recepcionar os visitantes com os mais variados sucos de frutas amazônicas e com uma alegria cativante, que passa pelas exibições de carimbó, a dança típica do Estado.
Meia hora depois, já no Centro da cidade, o calor se torna ainda mais suportável por conta da infinidade de mangueiras espalhadas por suas ruas que oferecem sombra o ano inteiro.
Pelo caminho, as manifestações de fé à Nossa Senhora de Nazaré impressionam. Casas, edifícios, bancos e repartições públicas reverenciam a santa com decorações primorosas. Só se fala no Círio. “Um bom Círio para você”, “Compre a roupa do Círio”, “Almoce o peru do Círio”, são frases comuns em todos os cantos.
Entendi que, ao contrário do que ocorre em Fátima, em Portugal, e em Aparecida do Norte, São Paulo, santuários que conheço, o Círio de Nazaré não é apenas uma manifestação da religiosidade católica. Tem também seu lado profano, envolvendo festas, desfiles e shows em praça pública.
Durante todo o mês de outubro, Belém oferece um caldeirão de eventos aos visitantes, com o apogeu acontecendo no segundo domingo do mês, com a procissão do Círio.
A imagem da Virgem chega ao porto em uma fragata da Marinha e é recebida por mais de 2 milhões de pessoas com pétalas de rosas lançadas por helicópteros que acompanham os barcos da procissão fluvial.
A emoção começa ali. A pequenina imagem é levada então até a Igreja da Sé, onde passa a noite e no dia seguinte é seguida por uma multidão de peregrinos que cumprem promessas feitas à santa e se agarram às cordas de proteção da berlinda, numa demonstração de fé impressionante.
A minúscula imagem de Nossa Senhora de Nazaré é o elo de ligação entre todos. Ricos, pobres, brancos e negros, políticos e gente comum. Todos se curvam à ela pedindo paz, proteção, saúde e trabalho. A maioria agradecendo pedidos, entre eles a aquisição da sonhada casa própria ou a aprovação no vestibular.
Descalços, exaustos, suando e com as mãos calejadas de tanto puxar e se prenderem à corda, homens e mulheres rogam por um copo d’ água, sem ceder em um milímetro de seu objetivo.
Aí entra mais uma vez a solidariedade do povo paraense que oferece a essa gente humilde o único consolo possível naquele momento de fé. Litros e mais litros de água com certeza abençoados pela Virgem de Nazaré.
É emoção demais para qualquer ser humano. Católico, espírita, protestante ou agnóstico. Confesso que chorei!
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A corda milagrosa
A corda de proteção da berlinda é o símbolo mais importante da romaria. Ela era usada para puxar o carro com a imagem, mas hoje representa a ligação entre a santa e o povo.
Durante a procissão, os homens ficam de um lado e as mulheres do outro. Todos descalços e disputando um pedacinho de espaço para tocar a corda como uma forma de pagamento da promessa.
Assim como aconteceu com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a imagem cultuada de Nossa Senhora de Nazaré foi encontrada pelo caboclo Plácido de Souza, na margem de um igarapé.