Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria sofrida


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“A história que vou contar aconteceu em de maio de 1971. Tudo começou com uma conversa na varanda da casa de meu pai, João Bertoni, falecido recentemente. Estávamos meu pai, eu (Carlos Bertoni), meu cunhado Tadeu, o Carlão e o Neurides, nossos amigos, e devia ser um sábado à tarde. Estávamos tomando umas e outras, quando surgiu a idéia de irmos pescar em Airosa Galvão, nas plataformas abandonadas do antigo leito da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. A conversa continuou e resolvemos marcar para o próximo sábado, também decidimos que deveríamos ir de trem, pois era o meio mais prático de se chegar ao local.

No sábado de manhã, nós começamos a arrumar as tralhas. A comida e as bebidas ficaram por conta do Carlão. Nós íamos levar pouca coisa, pois só passaríamos a noite e no domingo de manhã pegaríamos o trem de volta.

Combinamos de nos encontrar na Estação Ferroviária, por volta de 13h, pois o trem passaria por lá, entre 13h10, e 13h30. Às 13h20, estávamos todos à espera do trem e começamos a checar as coisas. Naquele momento, perguntamos ao Carlão onde estavam a comida e as bebidas, até porque ele portava apenas uma minúscula mochila, que mal cabia uma garrafa da ‘marvada’, sem contar as suas tralhas.

Foi quando o Carlão fez uso da palavra e bateu no peito, dizendo, ‘Xá...comigo!’ E continuou: ‘Conversei com uns amigos que têm um rancho em frente às plataformas e lá tem de tudo, inclusive bebidas, e que podemos usar à vontade’. Nós não acreditamos muito, mas naquele momento, não restava outra coisa a fazer. Subimos no trem e partimos para o nosso destino.

Ao passar pela ponte do rio Tietê, o maquinista esqueceu de nós e seguiu até a Estação de Ayrosa Galvão. Então, nós tivemos que voltar até o rio pelo leito da ferrovia, cerca de cinco quilômetros... Aí foi só o começo do nosso sofrimento, pois o Tadeu e o Neurides, que tinham passos de avestruz, dispararam na frente. O Carlão ficou na intermediária e eu e meu pai acabamos carregando as tralhas com uma vara e, mesmo ‘correndinho’, nunca alcançávamos os ponteiros.

A surpresa começou quando chegamos na beira do rio, pois a Cesp havia aberto as comportas da barragem em Barra Bonita e estava tudo alagado, inclusive o rancho, ficando com as águas batendo na metade das paredes. Moral da história, ficamos num mato sem cachorro.

Mas como fomos para pescar, atravessamos até a segunda plataforma, nos ajeitamos no local e começamos a pescar. A tarde caiu, veio a noite e tratamos de fazer uma fogueira para aquecer do frio, pois começou a ventar e, nem precisa dizer, a pescaria tinha acabado.

Acendemos a fogueira com uns palanques que tiramos de uma cerca abandonada e deitamos em volta dela, sem contar que a plataforma não media mais que cinco metros quadrados. Só estava faltando chover, pois não tínhamos o que comer, beber e nem como nos cobrir do frio. E não é que a danada apareceu, fina, mas gelada.

Pelo menos a sede nós matávamos com a água do rio, o frio tentávamos espantar com aquela fogueira miúda, mas tinha a chuva e a fome - bem a fome que esperasse até amanhã. Foi quando avistei um pedaço de sabão campeiro na mureta e imaginei ser um doce-de-leite e tasquei uma mordida. Pronto, foi a maior gozação, sem contar a presença de um sapo que devia estar com mais frio que a gente, pois jogamos o bicho no rio várias vezes e toda hora ele aparecia de volta. Ou estava com frio ou precisando de companhia.

Quando amanheceu, pegamos as coisas e seguimos para a Estação, esperar pelo trem e ver se havia alguma coisa para comer. A única coisa que encontramos foi rapadura e, não deu outra, matamos a fome com a danada.

O trem chegou. Cansados, pegamos a composição e voltamos a Bauru. Assim terminou a nossa aventura.

Por isso eu sempre digo, em beira de rio, leve sempre uma lata de sardinha, pão, alguma coisa para beber e se cobrir, pois você nunca sabe o que espera por você. Ah! Não esqueça o abridor de latas! Um abraço a todos.”

Carlos Bertoni é aprendiz de pescador.

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