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Cultivando vulnerabilidades?


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Quando estava lendo o livro Therapy Culture: Cultivantig Vulnerability in a Uncertain Age (Cultura da Terapia: Cultivando Vulnerabilidade numa Era de Incerteza), do sociólogo Frank Furedi, várias questões e problemas me vieram à mente. Este autor britânico faz uma brilhante obra de psicologia social, desenvolvendo uma linha de explicação da causalidade de transtornos mentais. Houve uma mudança de paradigmas para explicar doenças mentais de um determinismo social para um determinismo emocional mais ao nível da psicologia individual.

Um exemplo do choque dessas duas metodologias seria o da luta antimanicomial dizer que os hospitais psiquiátricos criam os casos graves de esquizofrenia, embotados afetivamente e com suas vidas comprometidas funcionalmente, impedindo-os de serem produtivos. Poderíamos dizer que a instituição criou o problema seguindo raciocínio determinístico social, mas encontramos 1% da população com vulnerabilidade para ter transtornos mentais do espectro da esquizofrenia e transtornos relacionados em qualquer país, seja qual for o local no planeta.

Por mais esclarecedor o autor e válida a polêmica criada por este, para minha formação biológica e biomédica me parece que este livro mostra uma série de equívocos e confusões na confrontação desses determinismos. Certos transtornos mentais são graves devido a alterações sutis da formação do cérebro, desenvolvimento e amadurecimento do mesmo. Epidemiologicamente falando, haverá sempre 1% da população com vulnerabilidades para transtornos psicóticos do espectro da esquizofrenia, e desta população, 20% terão comprometidas suas vidas produtivas, independente de haver ou não instituições hospitalares e asilos psiquiátricos. Infelizmente, uma doença grave e devastadora.

Até que ponto uma atitude e/ou metodologia é válida para explicar certos fenômenos da esfera emocional e mental ou não? É uma questão aberta das disciplinas dos profissionais da saúde mental. Parece-me que os defensores de uma teoria da doença mental como um constructo social foram longe demais. Médicos psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais não criam a doença mental nas instituições. Os problemas estão nos indivíduos e numa percentagem da população que tem tais vulnerabilidades. Nossos objetivos não são ampliá-los, e sim trazer para uma faixa de normalidade dentro do possível.

Sugiro a leitura desta instigante obra publicada pela Routledge. Espero que uma versão em português esteja disponível para uma reflexão esclarecedora das problemáticas enfrentadas por profissionais da saúde mental e esteja ao alcance do público brasileiro. Certos problemas existiram e existirão independentemente das instituições que foram criadas para administrá-los e explicá-los. Para minha racionalidade baseada nos determinismos biológicos, certos equívocos dos determinismos psicológicos e sociais precisam ser melhor repensados.

O autor, Carlos Manuel Cristóvão, é médico psiquiatra.

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