Ronald Reagan morreu apenas poucas horas antes do 60º aniversário do Dia D, enquanto George W. Bush perambulava pela Europa entre manifestações, medidas de segurança rígidas, reprimenda papal e pedidos mendicantes aos antigos aliados para emendar os fiascos causados pelo Iraque.
Ronald Reagan, médio governador de um dos Estados mais importantes, foi o último presidente dos EUA no século americano por excelência. Precisamente, sua presidência levou até o último limite todas as características e sinais de identidade que converteram esse país no que George W. Bush recebeu de bandeja. O sistema que Reagan presidiu e que soube traduzir, como, talvez, ninguém melhor do que Franklin Delano Roosevelt, se esgotou exatamente com o final da Guerra Fria, que magistralmente provocou, ao acuar até as cordas uma União Soviética exausta devido à corrida armamentista e debilitada pela Perestroika de Mikhail Gorbachov.
Se Roosevelt apostou na derrota do fascismo e do nazismo como inimigos naturais da democracia liberal, Reagan foi o artífice que equiparou a identidade nacional à derrota dos restos do totalitarismo de Moscou.
Em lugar de plantar a semente de uma revanche russa preparada durante décadas, Reagan soube preparar o caminho para que os antigos inimigos hoje possam se converter nos melhores aliados.
As características de Reagan são exatamente contrárias às que se notam no atual inquilino da Casa Branca. Incômodo em seu papel, de andar rígido em seus trajes de tons discretos, de discursos lidos voltando a cabeça da esquerda para a direita acompanhando o teleprompter, real ou imaginado. Inclusive os equívocos lingüísticos de Reagan eram memoráveis por serem ingênuos, enquanto os de Bush Jr. são patéticos e normativos.
Impossibilitado, por compreensível pudor, de se comparar ao seu pai, George W. Bush se viu obrigado, quando não internamente inclinado, a emular Reagan. Se este venceu o marxismo vacilante, Bush colocou na cabeça que deve passar à história como o vencedor do terrorismo internacional. A diferença fundamental é que nos anos 80 da era Reagan ainda se acreditava no básico sonho americano. Agora se transformou em um pesadelo.
Por estas razões, não somente seus partidários como seus críticos e, sobretudo, os que apóiam opções diferentes dos “republicanos de toda a vida” que votavam em Reagan, hoje, mais do que há alguns anos durante a presidência de Clinton e do longo inverno dos conservadores, sentem saudades. Mais por comparação com a liderança atual, recorde-se, do que pela realidade de sua atuação na época. ( O autor, Joaquín Roy, é diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami)