Sinceramente, acredito que alguns acontecimentos não sejam obras do acaso. Há algumas semanas atrás, vimos o Congresso Nacional curtir dez dias de recesso remunerado por causa de um mísero feriado de quarta-feira. Não se envergonham, também, contarem com dezenas e mais dezenas de projetos de lei, de vital importância aos interesses da nação, empoeirados há décadas à espera de algum parecer ou empurrão para que lhe seja dado andamento.
Entretanto, parece incrível que conseguiram, em três meses, elaborar uma Emenda Constitucional e já votá-la em dois turnos (votações noturnas raras), articulando manobras para fugir de prazos e pareceres, bem como agilizar a tramitação no Senado, em detrimento de inúmeros projetos anteriormente apresentados e que tinham prioridade nas votações. E, do total de deputados votantes, apenas 5% foram contrários à nefasta decisão.
Isso nos mostra a noção de democracia que impera no Brasil, especialmente nos poderes Executivo e Legislativo. Muito embora a imprensa televisionada e escrita tivesse apresentado os benéficos efeitos da redução do número de vereadores por todo o país, haja vista os abusos nos milhares de municípios, muito embora todos os entrevistados (do povo) pelos órgãos da imprensa, sem qualquer exceção, tivessem se manifestado positivamente pela redução, muito embora a proporcionalidade atribuída pelo TSE tenha seguido um critério inteligente e matemático, os congressistas, na clara defesa dos interesses particulares de suas bases políticas, atendendo ao desespero dos representantes das Câmaras Municipais, ignoraram esse evento passageiro chamado “democracia” e legislaram, mais uma vez, em causa própria.
Por essa e muitas outras razões sinto-me seguro para dizer que, nesse País, o simples direito de poder reclamar do governo sem qualquer tipo de censura não representa a Democracia. Seguro, para afirmar que a ditadura do voto, na forma com que se apresenta, é mais prejudicial aos interesses da nação. Seguro para reconhecer que o analfabeto e a população miserável de 51 milhões de brasileiros não estão preparados para exercer o voto, pois que a expressiva maioria do Congresso, assembléias estaduais e Câmaras Municipais é eleita na base da compra velada do voto. Todos sabem disso e é impossível evitar-se esse acontecimento.
Mais seguro me sinto para afirmar que os 600 parlamentares de Brasília, se naufragassem em suas misérias morais e desaparecessem, não por obra do acaso, apenas trariam vantagens para o Brasil, ainda que entregassem o comando para qualquer administrador, imbuído de interesses realmente nacionalistas, independentes do regime que fosse. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)