Economia & Negócios

Artigo: Gol de placa do algodão


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Há 20 anos, o Brasil cultivava 3,5 milhões de hectares com algodão. Nesta safra de 2004, a área plantada mal atinge 1 milhão de hectares. Problema? Não, tecnologia. A forte redução no plantio atesta uma verdadeira revolução na cotonicultura nacional.

Basta olhar o resultado da produção. Ao invés de declinar, a colheita aumentou de 1,0 para 1,2 milhões de toneladas de pluma. Mágica?

Não, agronomia das melhores. Investimentos em pesquisa permitiram extraordinário aumento da produtividade por área, multiplicando-a 4 vezes. O avanço no conhecimento científico foi tão completo, que configura novo patamar tecnológico para a atividade. É como se surgisse outro algodão.

A cultura despontou por aqui na década de 40, aproveitando-se do vácuo causado pela crise da economia cafeeira. Os plantios foram estimulados pelos teares ingleses, que se abasteciam da fibra cultivada principalmente em São Paulo e, depois, no Paraná. O Brasil tornou-se o maior produtor de algodão do mundo.

Naquela época, era o IAC-Instituto Agronômico de Campinas quem dava as cartas da tecnologia, selecionando variedades e desenvolvendo métodos de cultivo. Graças ao algodão a economia rural paulista agüentou firme na refrega da crise cafeeira, segurando o emprego e a renda do interior, especialmente entre os anos de 1940 a 1960. Permitiu, assim, uma transição da monocultura para agricultura diversificada.

Não demorou muito o apogeu. O mercado externo fraquejou e a cotonicultura decaiu, marcando passo até os anos 80. Quando a arroba viu seu símbolo tornar-se famoso na internet, o algodão entrou em franco declínio.

Os solos se desgastaram; doenças e pragas se alastraram, culminando com o terrível bicudo, pequeno inseto que destruiu as plantações. Em 1990 abriram-se as importações e a produção nacional foi aniquilada. O país virou o maior importador de algodão do mundo. Uma tristeza.

O futuro, todavia, se gestava nas entranhas da decadência. Ao desalento se contrapôs a animação de Rondonópolis, no Mato Grosso, onde vingou a lavoura do cerrado. Em 8 anos, o algodão deu a volta por cima, virou a página e ressurgiu mais forte que nunca. Parece milagre.

O tradicional cultivo cedeu lugar à lavouras mecanizadas, em grandes áreas. Catadores foram substituídos por complexas colheitadeiras. Nada de arar e gradear o terreno: impera a técnica do plantio direto, que conserva o solo, ao invés de expô-lo à erosão. Modernas variedades, geneticamente adaptadas, exibem porte de campeão.

Mato Grosso, que nunca vira antes um pé de capulho branco, responde agora por metade da produção nacional. A produtividade atinge 350@/ha, uma brutalidade. Trás uma vantagem adicional: na época da colheita, a partir de abril, cessam as chuvas e as fibras se apanham limpas e puras, sem o estrago causado pela umidade, risco característico das culturas do sudeste. Não dá nem graça comparar.

A mudança tecnológica verificada na cotonicultura brasileira representa, sem qualquer dúvida, um dos maiores sucessos da agricultura mundial. Mereceria um prêmio. Muitos o compartilhariam. Pesquisadores da Embrapa e da Fundação MT, o cérebro do projeto; os governadores Dante de Oliveira e Blairo Maggi, que bancaram a empreitada; empresas de máquinas e implementos agrícolas, que apostaram na qualidade. Destacados seriam os produtores rurais, que se inspiraram no arrojo do Marechal Rondon e aventuraram-se naquelas terras aparentemente imprestáveis, tornando-as superprodutivas.

O êxito se espalha em Goiás, no Ceará, pela Bahia, líder nas lavouras irrigadas. O país retornou ao mercado mundial há 3 anos, exportando pluma de excelente qualidade. Para 2004, o volume das exportações pode atingir 450 mil toneladas, estimando receitas de US$ 1 bilhão.

A trajetória possibilitou uma ousadia. O Brasil denunciou os EUA na OMC, exigindo o fim dos absurdos subsídios, cerca de US$ 13 bilhões nos últimos 4 anos. Tais recursos bancam um nível de produção que entope o mundo com algodão gringo, avilta os preços e prejudica os países em desenvolvimento. Ora, os agricultores brasileiros são bem melhores que os colegas americanos, mas não conseguem competir contra seu Tesouro. Aí é covardia!

Os tupiniquins aqui estufaram o peito e peitaram os gigantes. Surpreendentemente, venceram. No jogo duro contra o protecionismo, quem atacou de centroavante brasileiro chama-se Pedro de Camargo Neto, que marcou um gol de placa. Precisou driblar até jogador do time brasileiro, pouco entusiasmado com as chances de vitória nessas contendas. Merece uma estátua de gratidão.

Falta agora a contribuição da biotecnologia. Uma variedade de algodão transgênico chamada Bt torna a planta resistente às vorazes lagartas. Essa vantagem resulta em redução no uso de pesticidas, desonerando a produção, aliviando o meio-ambiente e beneficiando os trabalhadores rurais. Na China, onde 4 milhões de agricultores já se utilizam do algodão Bt, o consumo de agrotóxicos caiu 70%.

A luta gloriosa dos cotonicultores brasileiros recebeu, desde o início, farto elogio do The New York Times. Isso mesmo, aquele jornal que chateou o presidente Lula. Corajoso, o diário defendeu a causa dos países em desenvolvimento, contra seus próprios produtores rurais. O presidente Bush não gostou. Mas engoliu em seco. Viva o algodão.

O autor, Xico Graziano, é agrônomo e foi presidente do Incra (1995).

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