A artista plástica Myriam Therezinha Vanzella Sanson, a Dinda, é especializada em arte naïf, gênero também chamado de pintura primitivista que surgiu em Paris no final do século 19, priorizando a simplicidade - tanto na técnica quanto na temática.
Dinda já realizou inúmeras exposições em Bauru e outras cidades e é filiada à Galeria Jacques Ardies e à Galeria de Arte Brasileira, ambas localizadas em São Paulo e consideradas grandes centros de pintura primitivista do País. Possui seu nome catalogado no “Dicionário de Artes Plásticas”, do crítico de artes Júlio Louzada, e no livro “Pintura Primitivista”, de José Nazareno Mimesse.
Em 1993, um dos trabalhos de Dinda foi cartão postal pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), sendo vendido nacionalmente e em países do Exterior - na França, a tiragem foi de 12 mil exemplares. Sua produção mais recente, a mostra “Estação Café”, integra a programação da festa junina do Serviço Social do Comércio (Sesc). Composta por 11 telas em estilo naïf, a exposição pode ser apreciada até dia 27 de junho na área de convivência do clube.
Dona de um estilo único de pintar - que remete ao romantismo dos temas bucólicos e à riqueza de detalhes coloridos - Dinda comemora mais duas décadas trabalhando como artista plástica, se destacando como um dos grandes nomes do primitivismo no Brasil.
Mas para a artista, o naïf representa mais do que seu principal estilo de pintura. O gênero foi o grande responsável pelo ingresso da artista no “mundo encantado da pintura”, como ela própria diz. Foi o estilo primitivista, aliás, que inspirou seu nome artístico: Dinda. “No Rio de Janeiro já havia uma pintora primitivista famosa que também se chamava Miriam”, explica.
A história começou na década de 80, quando Dinda - que na época era professora primária - conheceu o trabalho artístico de seu cunhado, o também pintor primitivista Patrick Gheraty. Ao perceber seu interesse, ele a incentivou a produzir seu primeiro desenho naïf. “Na Páscoa, em 1983, o Patrick pediu para que eu fizesse um desenho primitivista”, lembra Dinda.
A partir daquele dia, ela não parou mais de pintar. Além disso, passou a pesquisar sobre a arte naïf em livros e a aprimorar suas técnicas de pintura - tudo de forma autodidata. Tempos depois, passou a dar aulas de pintura, fato que lhe obrigou a produzir telas em outros estilos, como o impressionismo e o cubismo.
A artista, que possui um ateliê em sua própria casa, recebeu a reportagem do Jornal da Cidade (JC) para um bate-papo sobre sua trajetória artística. A paixão pelos quadros é evidente: a começar pela entrada de sua residência, que chama a atenção pela grande quantidade de telas expostas. Como não poderia deixar de ser, as paredes da sala (e de outros cômodos) também são recheadas de obras.
Quando não está pintando - o que é difícil porque Dinda costuma fazer isso todos os dias - ela gosta de contemplar seus quadros. “Eu até converso com eles”, brinca. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
JC - Como a senhora se tornou artista plástica?
Dinda - Eu dava aulas para as terceiras e quartas séries e desenhava na lousa para ilustrar minhas aulas, sempre gostei muito de desenho. Minha irmã casou-se com um pintor americano, o Patrick. Quando ia visitá-los, eu nem queria saber de conversar, gostava de ficar olhando os quadros e sentindo o cheiro da terebentina e do óleo de linhaça (materiais usados para dissolver tintas) dos quadros do Patrick. Um dia, na Páscoa, em 1983, ele veio à minha casa e trouxe álbuns sobre pintura primitivista e eu fiquei toda empolgada. Em seguida saiu e pediu para que eu fizesse um desenho de imaginação que pudesse se considerar primitivista. Aí eu corri, peguei papel sulfite e começei a desenhar. Quando meu cunhado voltou, olhou o desenho e disse que estava muito bom, inclusive me deu uma caixa cheia de tintas, óleos, pincéis e uma porção de telinhas para que eu deslanchasse sozinha. Sabe o que eu fiz desse dia em diante? Só pintei. Fiz 18 quadrinhos em um mês, sem nenhuma cópia. Meu cunhado meu deu a felicidade de entrar nesse mundo encantado da pintura. A Dinda nasceu assim.
JC - Sua trajetória artística é marcada pelo naïf, mas a senhora possui quadros em outros estilos. Por quê?
Dinda - Durante muitos anos pintei só naïf. Todos os prêmios que ganhei e todas as exposições que eu fazia foram feitos somente com quadros primitivistas, mas chegou a situação estava meio difícil e comecei a dar aulas de pintura. E não era todo mundo que queria fazer pintura primitivista, aí eu comecei a ver se eu sabia pintar outros estilos. E eu sabia, inclusive fiz cópias de pintores famosos do impressionismo e do cubismo. Mas eu não gosto desses estilos e quando faço, pinto cópias.
JC - Por que o primitivismo é seu estilo de pintura preferido?
Dinda - O naïf é uma das minhas paixões, em todos os meus quadros eu tento fazer poesia. Ele me dá alegria, paz interior e o sentimento de que eu estou concebendo alguma coisa. Além disso, tenho muita satisfação em ter conseguido alunos que adoram o primitivismo, eu estou iniciando esses alunos não só a fazerem, como amarem o primitivismo. Eu empresto livros para eles lerem e entenderem que naïf não é só um quadrinho que criança gosta, ele é muito difícil de pintar, é mais difícil do que fazer um quadro abstrato, por exemplo.
JC - Por que a senhora afirma ser difícil pintar naïf?
Dinda - O quadro é cheio de minúcias, uma árvore, por exemplo, não pode ser um borrão, como se pode fazer no impressionismo. O pintor primitivista faz os galhos e folhas através de pinceladas e mais pinceladas. Tem que ser um quadro limpo, mas não precisa ter perspectiva e não precisa ter coisa nenhuma que qualquer escola mande.
JC - O pintor naïf não precisa ser acadêmico. A senhora já pensou em cursar artes plásticas?
Dinda - Nunca tinha pensado, felizmente eu tenho o dom do desenho e da composição. O pintor precisa saber desenhar, porque se ele copiar o trabalho perde todo o valor.
JC - Quais são seus temas preferidos?
Dinda - Meus temas são da fase que eu chamo de São Paulo caipira, não procuro temas de arranha-céus, faço temas do Interior. Quando pintei a Festa dos Reis Magos, por exemplo, mostro casais, filhos, pessoas abraçadinhas, crianças fazendo festa, os Reis Magos cantando as canções tradicionais. Sempre busco pintar de uma maneira romântica, onde a família participe. Coloco crianças e cachorrinhos e procuro transmitir alegria, nunca tristeza.
JC - Muitos artistas plásticos costumam chamar suas telas de filhos. Como é a sua relação com seus quadros?
Dinda - Eu converso com eles, eu os acho bonitos (risos). Fico olhando para as telas, sou apaixonada por elas. Mas quando meu quadro sai do meu ateliê, fico feliz de pensar que aquele quadro vai fazer parte de outra casa. Minha casa é lotada de telas, agora estou com poucas porque eu vendi muitas.
JC - A senhora tem facilidade em comercializar suas obras?
Dinda - De certo modo, consigo sobreviver da arte.
JC - A senhora acha que seu trabalho é reconhecido?
Dinda - Acredito que sim. Ano passado fui capa do CD “Tangos e Boleros” (do músico Marcelo Barboza e lançado na Inglaterra). Um dos meus quadros que estava na Galeria Jacques Ardies foi selecionado para ser cartão postal da Unicef. Tudo isso dá muita satisfação e bem-estar porque eu também estou ajudando o próximo. Já em Bauru eu tenho um certo “fã-clube”: são mais ou menos as mesmas pessoas que compram quadros meus em estilo naïf.
JC - Por que os trabalhos em naïf agradam tanto?
Dinda - Quando entro numa casa de uma pessoa que pretende ser um colecionador de quadros, se eu não vejo um quadro naïf, eu acho que a pessoa não entende de arte.